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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 25/05/16

Amor não retribuído


Basta uma mulher manifestar certa amargura e logo surge alguém para chamá-la, ofensivamente, de mal-amada. Pois então. É o que somos todas, mal-amadas. E todos os homens são também. De Norte a Sul, formamos uma população de mal-amados: o país não quer nada com a gente.

Desde que comecei a ter alguma noção de política (no meu caso, quando entrei na faculdade), mantenho uma relação de desconfiança com o Brasil. Sabia que ele havia feito sofrer muita gente antes de mim, um repressor sádico, que torturava entre quatro paredes. Eu o amei quando criança porque não o conhecia direito, até que cresci e ele pareceu crescer também, democratizando-se e passando a fazer promessas que eram tudo o que alguém apaixonado gostaria de ouvir.

O Brasil é um sedutor. No discurso, acena com reciprocidade. Necessidades básicas atendidas. Direito de ir e vir, liberdade de expressão, troca de ideias. Uma relação adulta, prazerosa, possibilitando que todos evoluam juntos. O amor ideal.

Mas o Brasil fala muito e faz pouco. O Brasil promete e às vezes chega perto de realizar nossos sonhos, mas logo reincide na cafajestada. Não sai da adolescência. Vive se deixando levar pela lei do menor esforço, querendo obter vantagens, sobrevivendo de conquistas rápidas e inconsistentes, deslumbrado pelo próprio poder e esquecido de suas obrigações. Um gargantão que às vezes dá a impressão de que virou gente grande, mas virou nada, é o mesmo moleque de sempre.

Diante desse descompromisso explícito por parte dele, nasceu nossa mágoa. O povo brasileiro, em sua maioria, hoje se comporta como quem levou um fora. Como quem teve seu amor recusado. E daí para ficar rancoroso é um passo.

A gente acreditou que iria dar certo. Acreditou que haveria futuro, uma relação sólida e para sempre. Que o visual exuberante, esse país tão belo, tinha também conteúdo, honestidade, ética, inteligência. Mas ficou só no desejo, não rolou. Todas as brasileiras são mulheres de bandido. Todos os brasileiros se envolveram com uma nação biscate. O Brasil não quer saber de relacionamento sério. É crau e fim. Não telefona nem manda flores no dia seguinte.

Cada um de nós ainda procura se apegar a algo que nos pareceu bom no início da relação com o país – o que pareceu bom pra você? Os militares? Sarney? Collor? Fernando Henrique? Lula? Deu em nada ou quase nada. Hoje estamos todos nos xingando mutuamente, numa ânsia desesperada de apontar culpados pela própria desilusão, sem perceber que temos algo profundo em comum: o ressentimento. Uma tremenda dor de cotovelo. Somos todos vítimas de um amor cívico que o país nunca retribuiu.


Jornal Zero Hora - 25 maio 2016
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segunda-feira, 23 de maio de 2016



As particularidades do sexo numa relação {com filhos} - Balzaca Materna:

"aquele raro instante

em que os olhos

se fecham

pra sentir

o perfume

do

CÉU"



(Be Lins)




sábado, 21 de maio de 2016


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"A vida precisa do vazio:a lagarta dorme num vazio chamado casulo até se transformar em borboleta. A música precisa de um vazio chamado silêncio para ser ouvida. Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha o contrário; pensa que o bom é ser cheio. Essas são as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. São umas chatas quando não são autoritárias. Bonitas são as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas é fácil amar. Elas estão cheias de vazio. E é no vazio da distância que vive a saudade..."


(Rubem Alves)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

terça-feira, 17 de maio de 2016


7 DICAS PARA AJUDÁ-LA A SER SEXY AOS OLHARES MASCULINOS <a href="http://superela.com/2014/07/22/7-dicas-para-ajuda-la-a-ser-sexy-aos-olhares-masculinos/" rel="nofollow" target="_blank">superela.com/...</a>

"Proponho uma pequena subversão:

agrade a si mesmo e 

a mais ninguém."


(Martha Medeiros)

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Happy birdies:

"Quero cantar como os pássaros cantam,
 pois eles não se preocupam com quem ouve
 ou o que eles pensam."

(Rumi)




segunda-feira, 9 de maio de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/05/16

Saudade de sentir saudade



Temos recursos, temos acesso. A saudade já não precisa ser tamanha, podemos torná-la comedida

Telefonei para minha mãe hoje de manhã, e ela, ao ouvir minha voz, sussurrou com doçura: Filha, saudades.... Não fazia nem 48 horas que ela havia almoçado aqui em casa, sem contar os dois telefonemas que haviam sido trocados ontem, e ela já estava com saudades. Isso me fez sentir a filha mais amada do mundo e a mãe mais megera do planeta.

Não vejo minha própria filha há dois meses (está morando ali na Nova Zelândia) e quando me perguntam se não estou derretendo de saudades eu digo que sim, claro, mas na verdade tenho falado com ela mais hoje do que quando ela dormia no quarto ao lado. O WhatsApp e o Facebook fazem com que minha saudade não mereça virar uma queixa e muito menos um sofrimento. Minha saudade é tolerável, ainda que o adjetivo tolerável não costume ser tolerado pelo passional universo materno.

Lembro com certa nostalgia de quando a gente esperava uma carta, esperava para revelar uma foto, esperava para colocar os olhos no bebê que ainda estava dentro da barriga. Pois andaram me mostrando a ecografia de um feto de quatro semanas cuja resolução era incrivelmente parecida com a de uma selfie. Hoje em dia você pode dizer se seu filho puxou ao pai ou à mãe meses antes de ele nascer. Esperar é verbo condenado à extinção.

Se não há mais espera, onde colocar a saudade? Posso ver e falar com quem eu quiser, na hora que quiser, em tempo real. Qualquer país do Hemisfério Norte está mais próximo do que a esquina aqui de casa. Longe é um lugar que não existe, confirmado. Caducou até mesmo a Teoria dos 6 Graus de Separação, estudo que prova que estamos a seis pessoas de distância de qualquer outra pessoa, até mesmo do Barack Obama. Ora, o Obama está no Twitter. E já falei com Mark Ruffalo pelo Facebook. Não preciso de intermediários. Daqui a pouco até Deus estará online (aliás, está: www.theconfessor.co.uk ).

A saudade é provocada pela ausência, mas quem se ausenta, hoje? Aqueles que morreram, apenas – para a morte não há aplicativo. Já reclamar de saudade de quem está vivo virou apenas um afago verbal, uma declaração de amor, e não uma carência real de contato, a não ser que se esteja muito desanimado para ligar os apetrechos eletrônicos que nos conectam. Temos recursos, temos acesso. A saudade já não precisa ser tamanha, podemos torná-la comedida.

Não estou falando da saudade entre amantes: beijos e seus derivados, só ao vivo mesmo. E para amenizar a saudade constante que minha mãe sente, ela que se nega a aderir ao mundo digital, só vejo um jeito: forçá-la a aceitar um smartphone de presente e convidá-la para almoçar mais vezes.



Jornal Zero Hora - 08 maio 2016
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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 04/05/16

A extinção da vergonha


Fragmentos da infância: quando garota, se a professora me pegava colando, eu sentia vergonha. Sentia vergonha também quando, estando de vestido, sentada com as pernas entreabertas, alguém chamava minha atenção porque a calcinha estava aparecendo. Fui uma menina que se envergonhava quando um menino se aproximava para puxar conversa.

Com o tempo, a vergonha e a timidez amenizaram, mas até hoje ruborizo diante das minhas gafes. Fico sem graça quando cometo um erro gramatical e os leitores alertam. E também quando troco o nome das pessoas ou não as reconheço na rua – acontece direto. Não é caso para autoflagelo, já que é da nossa natureza se atrapalhar, mas sentir um pouquinho de constrangimento é educativo, ajuda a formar o caráter. Quase me orgulho de manter um hábito tão antigo e em desuso.

Ninguém mais sente vergonha. De coisa alguma. Nem daquilo que fala, nem do que veste, nem do que mente, nem do que paga, nem do que cobra, nem do que rouba, de nenhum flagrante desonroso.

Bisbilhotando no computador, encontrei um vídeo em que o filósofo Mario Sergio Cortella diz que a vergonha tem uma fonte matricial. Significa que, mesmo que sejamos totalmente despudorados, ao menos resta em nós (ou deveria restar) o receio de envergonhar a matriz – e nossa matriz é a mãe. Todos os nossos valores de conduta deveriam ser submetidos a uma pergunta simples: “O que minha mãe diria se soubesse que eu...?”. 

Se ela compreendesse, se considerasse coisa de pouca gravidade, você estaria absolvido. Mas se a reação dela fosse fechar todas as janelas da casa e retirar sua foto do porta-retratos, não haveria dúvida: você poderia até ter conseguido engambelar a polícia, mas teria sido reprovado no mais implacável teste de dignidade. Uma mãe envergonhada de um filho é o fundo do poço, não há como descer mais.

Venho a este assunto não só pelo fato de o Dia das Mães estar logo ali, no próximo domingo, mas para ilustrar este momento que estamos vivendo, em que ninguém se avexa com mais nada e ainda cita a família como inspiração para seus desmandos. O sujeito perde a compostura em nome do pai, do filho, da mãe, dos tios, dos sobrinhos, dos netos e da sua ilustre cara de pau.

Encerro esta coluna com a mesma frase com que Cortella encerrou o trecho da palestra a que assisti em vídeo, e ele há de desculpar minha falta de originalidade. É que a citação foi tão oportuna, que merece ser expandida. É de Immanuel Kant, que no século 18 sentenciou: “Tudo o que não puder contar como fez, não faça”.

Com esse pensamento na cabeça e mais a foto da mãe dentro da carteira, só dinheiro honesto entraria ali, por exemplo. Já seria uma vergonha a menos.


Jornal Zero Hora - 04 maio 2016
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segunda-feira, 2 de maio de 2016

domingo, 1 de maio de 2016



"Eu sento na beira da praia dos seus olhos, incontáveis vezes, perto ou longe de você, só pra apreciar de novo. Porque o amor é isso também: essa admiração que não cansa de se reinventar a cada onda."


(Ana Jácomo)

sábado, 30 de abril de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 01/05/16

Adúlteros


Um adulto de verdade trai a si próprio sem um pingo de culpa. Festeja a alforria que o acúmulo de vivência lhe trouxe de bônus

Todo adulto é um adúltero. Não precisa ser fiel a mais nada.

Se ele continua apegado a antigas convicções, antigas preferências e antigas manias, é um preguiçoso que se acomodou, escolheu viver de forma repetitiva, no piloto automático, cansado para novos entusiasmos. Está aguardando a morte sem aproveitar a liberdade que a maturidade lhe daria, caso tivesse amadurecido. Se ainda está agarrado ao que lhe definia aos 18 anos, então não saiu mesmo dos 18.

Um adulto de verdade, bem acabado, trai a si próprio sem um pingo de culpa. Festeja a alforria que o acúmulo de vivência lhe trouxe de bônus. Tornou-se um condenado à morte com direito a centenas de últimos desejos.

Um adulto é um adúltero que um dia jurou fidelidade eterna aos Beatles e aos Rolling Stones, mas que um belo dia cansou de conservá-los com naftalina e que resolveu confessar que já não consegue escutar Yesterday sem enfrentar náuseas e que se sente ridículo dançando I Can´t Get No Satisfaction. Trocou o rock pelo neo soul, seja lá o que for isso. Escuta coisas que despertam sua atenção aqui e ali, estilos que gosta num dia e dispensa no outro, e segue em busca de novidades sem querer aterrissar em mais nenhuma “banda preferida” que lhe enclausure num perfil. Só não rasga a carteira de identidade porque o juízo se mantém.

Um adulto é um adúltero que adorava o verão quando era um frangote, mas que, ao abandonar as pranchas e ao se aproximar dos livros, acabou criando uma predileção pelo inverno, até que o tempo passou mais um pouco e ele entendeu que a primavera e o outono é que eram cativantes pela ausência de extremismo, e agora, neste instante, voltou a preferir o verão, mas não assina embaixo, não tem mais firma reconhecida em cartório algum.

Um adulto é um adúltero que deixou de ser fiel aos próprios gostos. Deu-se conta disso quando, ao frequentar a casa de amigos, reparava que serviam a ele sempre o mesmo prato preferido: como explicar que virou um cafajeste gastronômico chegado a outros sabores? As conversas igualmente passaram a se repetir, e ele se pegou aceitando convites de estranhos - hoje é chegado a outros amigos também.

Don Juan de si mesmo, já não tem cor que lhe assente, autor que o represente, estilo de vestir que o catalogue, pensamento que o antecipe, sonho que o enquadre, viagem que o carimbe. Só não muda de time porque restou algum caráter.

Quanto ao amor, não é tolo. Sabe que quanto mais ele se abre para o mundo, quanto mais areja e celebra a própria vida, mais seguro estará nos braços de uma única pessoa, preservando a intimidade conquistada. Amor não é cor, música, esporte, estação do ano, ponto no mapa. Ele varia a si mesmo justamente para não precisar se procurar em mais ninguém.



Jornal Zero Hora - 01 maio 2016
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quarta-feira, 27 de abril de 2016


Spontaneous? Diesel Myguy is your perfect fit. http://www.diesel.com/fityourattitude#!/attitude/spontaneous #FYA12:

"Aprende, te blinda, te benze, te enche de amor 

que o que não for verdadeiro bate e volta".




(Andréa Beheregaray)
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