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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 28/09/16

80 anos


Certas idades cintilam mais do que outras. Os 15 marcam o fim da infância, os 30 não teriam tanta relevância não fosse Balzac e os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle, já os 40 nunca precisaram de livros e canções: eram donos absolutos do título “metade da vida”, o momento de decidir se as escolhas feitas na juventude tinham fôlego para manter-se ou se era hora de mudar de rota. Isso antes de vivermos tanto. Hoje em dia, metade são os 50, numa existência (otimista) de 1 a 100. Todos acusam o golpe: fez 50, passou para o outro lado.

Os 60 e 70 são marcantes também, por mais que esses números causem rebuliços na vaidade: como eu, me sentindo tão jovem, seja considerado de terceira idade? Como eu, com a cabeça tão boa, tenha os joelhos fracos e os olhos embaçados? Como eu, logo eu, tenha chegado até aqui sendo chamado de tio e tia se até ontem era um playboy, uma gatinha, um ser ainda valioso no mercado erótico? É quando começa o curto-circuito entre a jovialidade do espírito e a decadência do corpo, entre a jovialidade da mente e a decadência da vontade; aprendemos forçosamente a nos equilibrar entre o mais e o menos, entre o novo e o velho. Há que se ter maturidade para equalizar e extrair dessa passagem do tempo um diagnóstico positivo da experiência.

Até que se chega aos 80. É a idade (com margem de erro de dois pontos para mais e para menos) dos pais dos meus amigos, dos meus próprios pais e de inúmeras pessoas que admiro. E o que tenho visto é só celebração. Os 80 são motivo de festa, de orgulho e de uma espécie refinada de liberdade. Já não há mais tanta preocupação com o que os outros pensam, assume-se um pódio de chegada onde o troféu é olhar para trás e ser grato pela estrada percorrida, pelas conquistas profissionais, pela família constituída e pelos amores que nos tiraram o sono – para o bem e para o mal. Quem é que chega aos 80 sem nada para contar? Não há como não se ter uma biografia aos 80. Você pode se sentir vencido, mas venceu também. Foi além da expectativa do IBGE. E o prêmio é não precisar mais atender às demandas do mercado.

Não tenho pressa nenhuma de atingir essa meta, sei que tem o lado perturbador, mas, sendo inevitável (aquela alternativa? não, obrigada), melhor render-se e desfrutá-la. Esta crônica é dedicada ao genial Luis Fernando Verissimo, um dos poucos ídolos que tenho – o outro é Woody Allen, rumo aos 81. Grandes homens que souberam honrar os anos vividos, que compartilharam conosco sua inteligência, humor e cultura, e que nos fazem perder o medo de chegar lá: onde tantos temem a aridez e a improdutividade, ainda há terreno fértil, esperança e futuro.



Jornal Zero Hora - 28 setembro 2016
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domingo, 25 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 25/09/16

Martha Medeiros está em férias. Esta coluna foi originalmente 

publicada em 15 de junho de 2003

Ilustríssimos



Por que cargas d’água somos tratados tão respeitosamente quando alguém está com vontade de nos enforcar?

Sua família sempre lhe chamou de Guto, tanto que você já nem lembra que nome realmente tem. É Guto pra lá e pra cá. Guto no jardim de infância, Guto no colégio, Guto no clube. Você tem todos os motivos, portanto, para ficar lívido e com as pernas bambas quando sua mãe grita lá da sala: Ricardo Augusto, venha já aqui. Ricardo Augusto??? Alguma você aprontou.

Por que cargas d’água somos tratados tão respeitosamente quando alguém está com vontade de nos enforcar? Sua mulher sempre lhe chamou de Beto: só lhe chama de Valter Alberto quando está a ponto de pedir o divórcio. E seu pai só lhe chama de Ana Beatriz quando avisa que a mesada será cortada. Por que cortar a mesada da sua Aninha, papai? A senhora sabe muito bem por quê. Você acaba de virar senhora com 14 anos.

Recebo um monte de e-mails carinhosos que começam com um simples Martha, ou Cara Martha, ou Prezada Martha, uma intimidade natural, já que de certo modo participo da vida das pessoas através do jornal. Mas, quando entra um e-mail intitulado Dona Martha, valha-me Deus. Respiro fundo porque já sei que vão me detonar de cima a baixo, vão me chamar das coisas mais horrendas, vão me humilhar até me reduzirem a pó. Mas leio tudo, pois lá no finalzinho encontrarei o infalível “Cordialmente, fulano.” Cordialmente é ótimo. Cordialmente, fui esculhambada.

E quando chega uma correspondência pra você em que no envelope está escrito “Ilustríssima”? Penso três mil vezes antes de abrir. Mas abro, mesmo sabendo que não é convite pra festa, pré-estreia de filme, desfile de moda, sessão de autógrafos ou inauguração de restaurante. Ilustríssima? Só pode ser convite para a palestra de algum PhD em física quântica, para comemoração do bicentenário de uma loja de molduras ou convocação para reunião de condomínio. Os ilustríssimos não merecem se divertir.

Agora, pânico mesmo, só quando me chamam de Vossa Excelência. Como não sou o Presidente da República, volto a pensar 3 mil vezes antes de abrir a correspondência, mas resolvo não abrir coisa nenhuma. Só pode ser do Judiciário. Intimação pra depor.



Jornal Zero Hora - 25 setembro 2016
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sábado, 24 de setembro de 2016


Imagem de coachella, girl, and summer
"Que as nossas almas sigam irmanadas na utopia de um mundo cuja maior loucura seja a dignidade de todos os homens. Cuja alegria de uns não esteja alicerçada na desgraça de inúmeros outros. Cuja esperança sobreviva ao caos. Onde o pão nosso de cada dia esteja à mesa recheado de sonho e poesia."




(Eduardo Galeano)

sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Imagem de legs, motivation, and you

"Talvez, eu é que não tenha mudado. Talvez eu só esteja me apresentando. Me permitindo. Talvez eu só esteja amando de um jeito diferente. Me reconhecendo. 
Só estou fazendo do horizonte a minha casa, o meu tema.

É que, eu não sei se você sabe, mas, a gente precisa colocar o amor pra cuidar da gente."


(Priscila Rôde)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016


Imagem de girl and bike

"O som do radinho de pilha, o cheiro do bolinho de chuva, a sensação do mertiolate no ralado do joelho. Sentada na calçada consigo sentir o sabor de cada lembrança. Benditas recordações que me cercam como em um abraço e me levam até um lugar radiante chamado saudade. Lá, o que eu fui segue intacto. Livre dos arranhões do tempo. Conservado por cada momento em que fui genuinamente feliz."



(Fernanda Gaona)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 18/09/16

Martha Medeiros está em férias. Este texto foi originalmente
 publicado em 16 de junho de 2002.



Do mês que vem não passa


O casamento seguia um tédio, mas o clima estava mais ameno. Olhando de longe, qualquer um diria que aqueles dois se entendiam bem

Juntos chegaram à conclusão de que o casamento estava um tédio, que o amor havia sumido e que a presença um do outro incomodava mais do que estimulava: nem mesmo a amizade e a ternura haviam sobrevivido. Depois de algumas cobranças inevitáveis, muita DR e lágrimas à beça, optaram por seguir cada um para seu lado. Quando? Logo depois das férias de julho: a gente viaja com as crianças e depois você sai de casa. Perfeito.

Voltaram de viagem mais duros do que nunca foram, o saldo completamente no vermelho. Não era uma boa hora para comprometer o orçamento com um novo aluguel. Ela compreendeu e disse para ele ficar em casa até as finanças se estabilizarem de novo, quando ele então poderia procurar um apartamentozinho.

O casamento seguia um tédio, mas o clima estava mais ameno, sabiam que dali a pouco estariam separados para sempre, então calhava uma harmonização, eles até passaram a sorrir com mais frequência e, olhando assim, de longe, qualquer um diria que aqueles dois se entendiam bem.

As dívidas da viagem foram pagas e, depois de mais uma entre tantas discussões bestas, resolveram agendar de vez a separação: logo depois do aniversário do pequeno Bruninho, que dali a um mês faria 19 anos e media 1m87cm.

Bruninho não quis festa, e o saldo do casal voltou a ficar positivo, mas não por muito tempo: a tevê já veiculava comerciais com a presença do Papai Noel. Natal era sempre uma despesa, e os sogros viriam do interior pra comemorar com a família reunida, melhor deixar passar o Natal e o Ano-Novo. É melhor, também acho.

Em fevereiro a Bia, filha mais velha, inventou de ir para a praia do Rosa com as amigas e ficou o mês inteiro lá, assim que ela voltasse os dois dariam o xeque-mate na relação. Bia voltou e já era quase Páscoa, e Páscoa sem ir pra fazenda da tia Sonia não era Páscoa. Depois da Páscoa, receberam o convite para serem padrinhos de casamento de um afilhado, melhor não criar constrangimento na igreja. Em seguida, foi o aniversário dele, que sempre fica meio caído nessa data, melhor deixar passar o inferno astral. E quando passou, aí foi ela que aniversariou.

Estão casados até hoje. Mas do mês que vem não passa.



Jornal Zero Hora - 18 setembro 2016
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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 11/09/16

O caso Multipalco


As grandes empresas e o governo é que podem fazer a diferença para a conclusão de uma instituição que irá potencializar a vida cultural do Brasil. Todo gaúcho sabe que a admirável dona Eva Sopher, 93 anos, dedica sua vida ao Theatro São Pedro e ao Multipalco, esta obra que parece tão inacabada quanto a Sagrada Família de Gaudí, em Barcelona. O Multipalco está demorando tanto para ser concluído que virou saga, mito, causo.

Porém, o que começou em 2003 com cinco anos de prazo para ser concluído já se estendeu por 13 anos e está mais do que na hora de ter um desfecho decente. Você sabe o que é, de verdade, o Multipalco?

Não é apenas aquela bela concha acústica ao ar livre. Não é apenas o ótimo restaurante Du Atos. O Multipalco é um complexo cultural inédito na nossa cidade e no nosso país. É um local que ministra aulas de música para jovens instrumentistas, é um espaço para teatro infantil, para corpo de baile, para ensaios de orquestras, para seminários. O esqueleto do prédio está pronto e funciona. Acabamento de primeira qualidade, salas amplas, competência na gestão. Falta pouco para se tornar o orgulho máximo dos gaúchos.

Recentemente uma coluna de Alfredo Fedrizzi repercutiu por tratar dos motivos pelos quais tantos desejam sair de Porto Alegre. Óbvio que há lugares mais atraentes para se viver, mas qual é a nossa contribuição para valorizar os projetos que, como o Multipalco, seriam aclamados em qualquer lugar do mundo?

As maiores construtoras nacionais estão envolvidas até o pescoço em escândalos. Gastaram os tubos com políticos a fim de se beneficiarem com contratos vantajosos. O que conseguiram com isso? Frequentar as páginas policiais. Tivessem direcionado uma fração desses milhões para obras de incremento à cultura, teriam feito diferença no futuro do país, seriam sócios de um progresso efetivo. Mas não.

A população contribui a seu jeito. O máximo que pode fazer é comprar ingressos, prestigiar espetáculos de qualidade, mas não é suficiente. As grandes empresas e o governo é que podem fazer a diferença, que podem doar o montante necessário para a conclusão de uma instituição que irá potencializar a vida cultural do Brasil. Não é supérfluo: se queremos um novo país, fatalmente a mudança passará pela cultura.

Se você conhece quem pode dar um arremate feliz para essa longa história, divulgue o e-mail: presidencia@ teatrosaopedro.com.br. Colabore compartilhando essa coluna e essa preocupação. Dona Eva, repito, tem 93 anos. Não merece ser privada de ver concluído um projeto que não é para ela, mas para nós, para as próximas gerações, para a realização de uma evolução que precisa deixar de ser utópica.



Jornal Zero Hora - 11 setembro 2016
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Imagem de love, kiss, and couple

"Deixe para ser frio quando morrer.

Demonstre Amor."


(Yasmin Trajano)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 07/09/16

Aquarius


Ando desconfiada da minha capacidade de avaliar obras cinematográficas, pois a mais recente estreia do único ídolo que tenho na vida, Woody Allen, não me arrebatou como eu esperava. Fui preparada para gostar, mas devo ser uma das raras pessoas a ter achado Café Society razoável, nada além disso. Diante da minha inesperada decepção, considerei que o problema era eu e insisti: entrei numa sala de cinema para assistir a Aquarius preparada de novo para gostar. Mas o inesperado aconteceu novamente: gostar foi pouco. Saí completamente arrebatada e comovida.

Por onde começar? Talvez enaltecendo a interpretação incrível de Sonia Braga. Ela está perfeita no hiper-realismo que o diretor Kleber Mendonça Filho impõe como meio de contar sua história: somos voyeurs de cenas que não parecem ter sido escritas e ensaiadas, elas simplesmente existem como existe a nossa vida, exatamente igual.

Aquarius mostra a maneira como Clara, uma mulher viúva, com três filhos adultos e que passou por um câncer de mama, reage à insistência de uma construtora para que ela venda o apartamento onde viveu quando jovem, depois com o marido e as crianças, até a solidão madura e bem resolvida de hoje. Ela é a única moradora de um velho prédio em frente ao mar, e não vê motivo para sair dali, mesmo que todos os seus vizinhos já tenham cedido e se mudado.

Aquarius fala sobre integridade. Sobre a dificuldade de abrir mão daquilo que nos constitui, do nosso edifício interno, onde abrigamos nossos valores, mesmo que eles pareçam desatualizados. Clara nos encanta, mas sua teimosia nos confunde: por que ela não vende logo o apê e se livra das incomodações? Porque, mais do que um apartamento, ele é a fortaleza que resguarda o caráter de sua dona. Mais do que um imóvel, é a extensão de seu corpo. A resistência dela não é teimosia. É dignidade concreta.

Hoje em dia, quase ninguém mais percebe nossos alicerces, aquilo que nos sustenta emocionalmente. No início do filme, uma jovem vai entrevistar Clara, que é expert em música, colecionadora de vinis, mulher de sensibilidade apurada. Dias depois, quando Clara lê no jornal o título que escolheram para a matéria, desilude-se um pouco mais: as pessoas nem ao menos nos escutam. Não quando nossa verdade não dá audiência, não gera lucro.

Somos os últimos sobreviventes de uma era em estado terminal. O analógico e o digital quase não dialogam mais, e a emoção tenta prevalecer sobre a razão, mas até quando? Clara sabe que há outros cânceres que nos corroem e que também deixam cicatrizes – a ganância, entre eles. Mas se ela venceu um, vai tentar vencer todos.



Jornal Zero Hora - 07 setembro 2016
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Chegue um pouco mais perto.





Se quiser, escuta essa também: You are not alone

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 04/09/16

Dublê

Ele quer transar às 3h30min da manhã. Dublê, assuma e não se queixe. Poderia ser pior: ele querer discutir a relação. Dublês, enviem seus currículos. Estou contratando.

Cena 1. Era para eu estar concentrada em frente ao computador escrevendo uma coluna para a próxima semana, mas a inspiração é zero e nem posso alegar que nada está acontecendo ao meu redor. Como não? Só que travei. Cansei. Um dublê de colunista, por favor. Eu vou até ali na cozinha tomar um copo d´água e volto em um ano.

Cena 2. Estou paralisada diante das vertiginosas demandas digitais. Inúmeros e-mails sem resposta, milhares de curtidas que não dei nas postagens dos amigos, o site do banco está fora do ar, esqueci a senha da conta jurídica, entrou um vírus, a navegação está lenta, mandei um WhatsApp comprometedor para a pessoa errada. Preciso de um dublê educado, zen e especialista em TI. Enquanto isso, vou até ao banheiro escovar os dentes e retorno em dois anos.

Cena 3. Ele quer transar às 3h30min da manhã. Dublê, assuma e não se queixe. Poderia ser pior: ele querer discutir a relação.

Cena 4. Minha mãe reclama que estamos nos vendo pouco. Falamos todos os dias pelo telefone, mas isto não conta. Dublê, visite-a, leve revistas, chocolates e não se esqueça de tirar duas ou três selfies para eu postar no Face, caso ela invente de entrar com uma ação contra mim.

Cena 5. Blitz. Eu bebi meio cálice de vinho, mas isto já é suficiente para prisão perpétua e apreensão do veículo. Dublê, dirija meu carro e esteja sóbrio. Eu vou até ali no bistrô beber o resto da garrafa com minhas amigas e volto direto pra casa, a pé.

Cena 6. A expressão “um aperto no peito” deixou de ser figurativa para ser real. O nome disso, se não for princípio de infarto, é angústia. Dublê, são tempos difíceis. Se alguém quiser bater boca, me represente enquanto medito até o próximo sábado.

Cena 7. Uma filha está usando um alargador na orelha. A outra abandonou a casa e o emprego para se aventurar pelo mundo. Minha funcionária pediu adiantamento, o segundo neste mês. Estou precisando tonalizar o cabelo de novo. Minhas unhas estão um lixo. Engordei três quilos e justo agora minha instrutora de pilates saiu de férias, e a terapeuta também. Você não é multitarefas? Dublê de mulher tem que ser.

Cena 8. Ao acertar minha participação num evento literário, sou avisada de que preciso imprimir três vias do contrato e reconhecer firma em cartório. Pelo visto, há muitos escritores falsificando suas assinaturas por aí. Preciso de um dublê despachante pra ontem.

Cena 9. Tratamento de canal. Ressonância magnética. Ecografia. Por favor, marque as consultas e vá no meu lugar, pode usar meu plano de saúde.



Jornal Zero Hora - 04 setembro 2016
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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 31/08/16

Guerra de torcidas


Inevitável lembrar o dia da votação do impeachment do Collor. A cada voto favorável à sua saída, eu aplaudia. Era 1992 e eu tinha certeza absoluta de que lado estava. Aliás, não havia divisão, era um processo apartidário. Todos os brasileiros estavam do mesmo lado.

Hoje, o país vive situação similar, mas o país foi rachado em dois.

O discurso de Dilma no Senado, na segunda-feira, foi digno e sua disposição para o interrogatório, louvável. Estava me causando boa impressão, até que vieram as ameaças: se ela fosse deposta, adeus à democracia, seria o fim do país, nenhum contrato assinado teria mais valor.

A gente sabe que não é bem assim. Existe também a alternativa de o país seguir seu curso, fazer ajustes necessários, fortalecer a economia e respirar até a eleição presidencial de 2018. A não ser que a oposição se articule para tirar Temer do governo antes disso, uma ação que chamaríamos de quê? Revanche? Toma lá dá cá? Golpe? Direito constitucional?

Passei então a observar o outro lado do balcão e houve momentos em que concordei com alguns argumentos pró-impeachment, mas não senti a menor vontade de fazer parte daquela turma. Os que julgam Dilma também estão enrolados até o pescoço. Tanta retórica começou a me dar náuseas e percebi que não havia, ali, preocupação com o Brasil, e sim paixão pela política, pelo jogo, pelo poder.

No início da noite, uma câmera flagrou um cumprimento amigável entre Aécio e Dilma. Dava para perceber que sorriam. É isso aí. Tal qual a troca de camisetas entre jogadores ao fim de uma partida de futebol. Todos disputam a posse de bola em campo, mas, no final das contas, é só um esporte. Amanhã um pode estar jogando no time do outro.

É bem provável que a decisão já tenha sido tomada: Dilma saiu ou Dilma ficou. No momento em que escrevo, não sei. Tampouco consigo ter a certeza que tantos têm sobre o que é justo, neste caso, e o que não é. Segundo os comentários deixados nas redes sociais, voltaremos a ser uma ditadura, se ela sair, ou amargaremos uma crise sem fim, se ela ficar. Exagero. Não creio que haverá nem um grande atraso nem um grande avanço, independentemente do resultado. Então torço, antes de tudo, para que vença a lei.

Transformação, pra valer, virá com a continuidade do trabalho da Lava-Jato. Não se pode parar de punir quem roubou, seja de que partido for – começando por Eduardo Cunha. É a corrupção que tem que sofrer um impeachment colossal a fim de abrir caminho para uma renovação no nosso modo de fazer política. Só então evoluiremos, trocando gatunos por pessoas realmente comprometidas e mantendo dinheiro em caixa para investir num projeto de país que nos una de novo.



Jornal Zero Hora - 31 agosto 2016
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