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quinta-feira, 26 de março de 2015



E nessas horas eu fico pensando em 
todas as músicas lindas que existem no 
mundo que eu ainda não ouvi?!?!

quarta-feira, 25 de março de 2015


graffiti 23


"Costumo acreditar que, em grande parte das circunstâncias, 
por mais incrível que às vezes pareça, o outro está fazendo o melhor 
que pode e se não faz mais é porque, embora queira, ainda não consegue. 

Acredito nisso porque costumo lembrar que, em grande parte das circunstâncias, por mais incrível que às vezes pareça, faço o melhor que 
posso e se não faço mais é porque, embora eu queira, ainda não consigo. 
Generosidade é também questão de memória."


(Ana Jácomo)

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 25/03/15

Sete vidas

Estreou recentemente a nova novela das 18h, Sete Vidas, que conta a história de um homem que, quando jovem, doava sêmen para se sustentar, e depois, adulto, descobre que tem sete filhos que não conhece.

Não estou assistindo, mas confio muito no taco da autora, a ótima Licia Manzo. Comecei a coluna usando esse gancho a fim de promover outro tipo de doação que também pode gerar seis, sete, várias outras vidas: a doação de órgãos. Faço questão de apoiar a campanha lançada pela Santa Casa.

Quando alguém morre, é uma vida a menos. É assim que analisamos a morte: como uma perda. Porém, a gente se esquece de que essa vida a menos pode gerar muitas vidas a mais. Basta que se doem o coração, as córneas, o pâncreas, o fígado, os rins e o que mais puder ser aproveitado.

Quem de nós não gostaria de ter serenidade e tolerância diante da morte? Pois é, porém nenhuma religião conseguiu até hoje confortar plenamente os parentes e amigos que enfrentam o desaparecimento súbito de uma pessoa querida. A ausência definitiva de alguém próximo é de uma brutalidade que encarcera a todos num luto sofrido. O tempo não cura, apenas ajuda a administrar a saudade.

Mas há paliativos. No momento em que é preciso superar uma dor extrema, a doação de órgãos pode tornar-se mais eficiente do que as missas encomendadas. É o verdadeiro ato de fé que manterá viva aquela pessoa entre nós.

Pense: o coração de alguém que morreu por causa de um aneurisma pode continuar batendo no peito de um estudante de Medicina, as córneas de quem viajou por lugares paradisíacos pode servir para um fotógrafo. É uma ressurreição possível, que sai das páginas da Bíblia para virar realidade entre nós.

Ninguém quer morrer, ninguém quer perder ninguém, ninguém quer nem mesmo tocar neste assunto, ainda mais estando tão atazanado com o trabalho e outros compromissos cotidianos. Temos tanta coisa a realizar, que necessitamos urgentemente da garantia de que viveremos por no mínimo cem anos. Mas, caso o destino resolva ser mais rápido no gatilho, é muito importante que tenhamos verbalizado para nossos familiares que somos favoráveis à ideia de sobreviver através do corpo de outra pessoa.

Anunciemos em alto e bom som: sou doador de órgãos. Deixemos a declaração por escrito, se preciso for. Não é um tema mórbido. Estamos falando de esperança, de renovação, de generosidade. De uma multiplicação milagrosa de fato: uma pessoa valendo por duas, três, sete.


Jornal Zero Hora - 25 março 2015
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terça-feira, 24 de março de 2015


"Cada um oferece aquilo que tem e transborda de dentro de si.  
Uma parreira oferece doce fruto, uma orquídea nos oferece 
bela flor. Um vulcão só oferece desolamento, calor, mal cheiro e
 lava, e não é segredo que uma cobra peçonhenta não te oferecerá 
mais que mortífero veneno.  É bem verdade que podemos reunir tudo
isso dentro de nós, mas lembre-se: as pessoas oferecem o que transborda 
de dentro de si. Quando fizeres o bem a uma serpente, não espere que 
ela te retribua com uma rosa, por que não é o que transborda de dentro 
dela. Quando fizeres bem a uma serpente, faça-o por que é este bem 
que transborda de dentro de ti, e é justo que compartilhemos o que de 
bom nós temos em excesso. 

Esse deve ser teu único pensamento e expectativa: 
Dê a quem precisa, não espere de quem não tem.
 Isto te dará felicidade e te privará de decepções.

E não te eximas de fazer o bem à serpente, 
por que algumas coisas não nos cabe reprovar 
ou punir, apenas compreender."



 (Augusto Branco)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22/03/15

Elogio à memória

O médico britânico Richard Smith gerou polêmica, recentemente, ao afirmar que o câncer é a melhor forma de morrer. Aos que já perderam alguém para essa doença infeliz, a pergunta que fica no ar é: como assim? Dr. Smith explica que, entre a morte súbita, a falência múltipla de órgãos, a demência ou um câncer, este último estaria em vantagem por dar ao paciente a oportunidade de se despedir dos seus afetos e prazeres, de refletir sobre a vida, de visitar certos locais pela última vez e de se preparar para a partida conforme suas crenças.

A polêmica se acirrou mais ainda quando ele disse que os investimentos para pesquisar a cura do câncer deveriam, ao menos em parte, ser direcionados a estudos sobre as doenças da mente.

A primeira vez que enxerguei o câncer com olhos menos dramáticos foi ao ler o livro Por um Fio, do dr. Dráuzio Varella, em que ele relata sua comovente experiência como oncologista. Agora, ao assistir ao filme Para Sempre Alice (que achei meio fraco, diga-se), reforcei a ideia de que o câncer dispõe mesmo de alguns benefícios nessa competição macabra.

A atriz Julianne Moore ganhou o Oscar de melhor atriz ao interpretar uma mulher de 50 anos que sofre do mal de Alzheimer. Ela perde palavras, não reconhece feições, esquece com quem estava conversando, e sobre o quê. Menos mal que ainda consegue produzir flashbacks, lembrar a infância e acontecimentos remotos. Porém, nos casos em que a memória vai inteirinha para o brejo, de que adiantou ter vivido?

Não faz sentido atravessar tantos conflitos e amores, ter cometido tantos erros e acertos e não poder, lá adiante, contabilizá-los. No inventário de uma vida, vale o que se fez e o que se sentiu. Se tudo for esquecido, esvaziam-se nossos 80 anos, nossos 90 ou 100. Qualquer longevidade passará a valer um segundo.

Espero um dia olhar para fotos antigas e me reconhecer no sentido mais amplo, recordar o que eu vivia naquele momento do clique, dizer “parece que foi ontem” sem sofrimento. Quero lembrar sabores, sorrisos, gestos, enfim, os flashes que iluminam a estrada atrás de nós. Quero inclusive lembrar os arrependimentos e as dores, que vistos de longe parecerão bem menores – e essenciais. Quero rir muito de mim, me recordando de trás pra frente.

Porque, se não for assim, nossa vida terá valido para os outros, os que nos lembram, mas não terá valido para nós mesmos. Seremos uns desmemoriados sem alicerces, vagando num presente ilusório, desaparecendo a cada minuto que passa.

Se temos que morrer um dia (que jeito), que seja abraçados a nossas recordações. A integridade de uma vida está em seu reconhecimento, mesmo que, junto às boas lembranças, sejamos obrigados a reconhecer também a proximidade do fim. É o preço. Pior é morrer alienado, sem poder avaliar, através da memória, se valeu ou não a pena.



Jornal Zero Hora - 22 março 2015
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sexta-feira, 20 de março de 2015

b happy*


"Particularmente, gosto de quem tem 
compromisso com a alegria."


(Martha Medeiros)

quinta-feira, 19 de março de 2015

Deep Camboya danielhl.tumblr.com  Posts 2,255 Followers 7 Activity Liked 132 posts Following 235 blogs ► Find blogs►  Follow Reblog Like  ja...


''Foi a minha teimosia que me fez quebrar a cara milhões de 

vezes e aprender as maiores lições da vida. E foi a mesma 

teimosia que me levou as maiores vitórias. Sou da legião 

dos que pegaram as armas para a batalha e se esqueceram 

do escudo. Já voltei pra casa com feridas profundas de 

flechadas certeiras. Ainda me esqueço, ainda volto pra casa 

com os mesmos ferimentos. Mas, já dizia o sábio:

 a flecha não acerta os covardes.''



(Camila Heloise)

quarta-feira, 18 de março de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 18/03/15

O verdadeiro inimigo

A corrupção dentro da Petrobras é só a ponta do iceberg – ou alguém acredita que em outras empresas, sejam estatais ou privadas, não acontece o mesmo? A corrupção no Brasil é um câncer que infelizmente não é terminal, porque não termina.

Porém, o foco hoje está na Petrobras, está no governo em vigência, está no momento presente, e isso divide o país. Se a corrupção estivesse sendo combatida como um mal comum a todos os partidos e a todos os segmentos da sociedade, talvez resgatássemos a humildade e nos mobilizássemos em busca de uma cura coletiva, mas virou uma guerra partidária. E aí sobra ofensa para tudo que é lado.

O toma lá dá cá de acusações reflete a infantilidade da nossa “consciência política”. Não queremos um país melhor, queremos ter razão. Analisar o problema de forma mais ampla? Não combina com nosso sangue quente. Decretar como inimigo a nossa própria índole está fora de cogitação.

Alguém devolve ao dono um dinheiro que encontrou na rua e vira matéria de jornal. Prova da deformação dos nossos valores. O que era pra ser trivial, aqui é raridade. Deixar o carro numa rua escura e retornar encontrando-o no mesmo lugar? Ir até um posto de saúde e ser atendido na hora? Ser educado por um professor bem pago? Tudo um “case”. O normal é o errado.

Diante de tanto errado para pouco certo, a gente não se une. A gente se desune, brigando uns contra os outros, ofendendo, ridicularizando, humilhando, baixando o nível da convivência. A democracia estimula a divergência de opiniões, sustenta o diálogo entre posições conflitantes a fim de encontrar um senso comum ou, na impossibilidade deste, um senso que represente a maioria, mas temos nos valido da democracia para xingar, insultar. É o Estado democrático autorizando nossa falta de educação.

Ok, às vezes, para defender nossas ideias, acabamos denegrindo quem pensa diferente. Acontece. Porém, tenhamos mais cautela e controle: a ofensa é o recurso de quem não tem nada a oferecer além de agressividade.

Troquemos a ofensa por argumentos. Coloquemos nossas divergências para dialogar. O que vem acontecendo é espetacular, máscaras caindo, mas entendamos que o Brasil precisa deixar o sentimentalismo de lado e agir de forma conjunta e adulta. O mais importante é garantir à nova geração que a impunidade acabou – os políticos e empresários de amanhã têm que começar a ter medo de roubar. Somado a isso, é urgente aprovar medidas concretas para moralizar tudo o que envolva dinheiro. Reduzir ao máximo o “me ajuda que eu te ajudo”.

Manifestações, críticas, desabafos, discordâncias, postagens indignadas ou bem-humoradas fazem parte do processo de reflexão e colaboram na mudança de mentalidade. Mas não esqueçamos que a guerra é contra a corrupção – que é apartidária.



Jornal Zero Hora - 18 março 2015
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terça-feira, 17 de março de 2015

She puts her hands on each side of my face and the room falls away. I have never gotten so lost in a kiss. The space between us explodes. My heart keeps missing beats and my hands cannot bring her close enough to me. I have loved before, but it didn’t feel like this. I have kissed before, but it didn’t burn me alive. All I know is that kiss, and how soft her skin is when it brushes against mine, and even if I did not know it until now, I have been waiting for this person forever.

"Amar é um negocinho simples
que às vezes complica,
e que só complica,
pra gente poder dizer pra alguém:

- Eu vou te amar mesmo assim!"


(Be Lins)

sábado, 14 de março de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 15/03/15

Pensar não é agir

Nunca esquecerei minha professora de História. Seu maior desejo era conhecer Roma. Era tão apaixonada por esse sonho que chegou a memorizar o mapa da cidade, julgava-se capaz de caminhar por suas vias com mais desembaraço do que um morador local.

Ela retinha a cidade em pensamento. Sentia o aroma de suas trattorias, a fuligem deixada pelas scooters, a imponência de suas edificações. Aprendeu italiano e adquiriu fluência no idioma. Tinha a viagem formatada dentro de sua cabeça, até parecia que já tinha ido. Mas morreu sem jamais sair do Brasil.

Da mesma forma, lembro uma tia distante que na adolescência se apaixonou por um garoto e decretou para si mesma que, se não casasse com ele, não casaria com ninguém mais. Nunca namoraram, mas ela criava os diálogos de seus encontros, sentia a mão dele segurando a sua dentro do cinema, imaginava seu vestido de noiva, escolhia nome para os filhos que teriam.

O rapaz casou com outra e ela continuava visualizando o sobrado em que morariam, os cuidados que teriam com o jardim, o apoio que dariam um ao outro quando a vida exigisse. Essa minha tia faleceu com mais de 80 anos. Virgem.

Dois casos extremos. Porém, longe das extremidades, na vida mundana de cada um, também há desejos desse naipe, que se realizam apenas dentro da imaginação, se é que o verbo realizar aqui se aplica.

A fantasia é um recurso luxuoso. A fantasia ameniza frustrações. A fantasia alimenta a autoestima sem danificá-la. A fantasia quase substitui o ato concreto.

Quase.

O pensamento fantasioso obedece ao script que determinamos, mas não basta. A realidade é muito mais poderosa. Acontece a nossa revelia, sem cumprir os requisitos que nossa mente inventou. A fantasia é um subterfúgio legítimo, porém os fatos que fantasiamos não merecerão uma única linha na nossa biografia. O que vale é a experiência. Sofrida. Vingada. Curtida. Exaltada. O que for. Mas vivida.

Está aí mais uma coisa que se aprende com a passagem do tempo: pensar não é agir. Pensar é pensar, é proteger nossa vontade, embalá-la, encarcerá-la no idealismo e se conformar com um prazer hipotético. Pensar é sem gosto, sem tato, sem cheiro, sem risco. Vale a pena uma vida sem risco?

Agir, não. Agir é um salto sem rede. Agir é uma viagem, uma vertigem. É ficar disponível para o bem e o mal. Agir é para os audaciosos, corajosos, merecedores do lugar mais alto do pódio. Agir é para quem tem autoconfiança e, no caso de tudo dar errado, ter também o humor necessário para se consolar e seguir adiante. Agir é o mais potente afrodisíaco.

São poéticos aqueles que vivem no sonho, mas tornam-se imunes à sedução.



Jornal Zero Hora - 15 março 2015
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Rain boots.

"Tudo o que
você
faz com
felicidade
é uma prece."


(Osho)

quarta-feira, 11 de março de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 11/03/15

Levantando voo

Ontem minha filha embarcou num avião para uma viagem ao Exterior sem data de retorno. Está realizando um sonho antigo, mas que se tornou premente nos últimos meses. Formada, inquieta, faminta por novas experiências de vida, acumulou salários, vendeu alguns pertences, passou madrugadas pesquisando as menores tarifas de passagem e hospedagem, arrumou a mala e se foi.

Muitos pais têm vivido essa ruptura: ver seus filhos partirem em busca de mais conhecimento e amadurecimento, jovens que precisam abandonar o ninho para um voo solo a fim de descobrirem uma nova direção e um ponto de vista que os surpreenda. Querem nascer de novo, agora sem cordão umbilical de nenhuma espécie.

O mundo deu uma encolhida. Pelo WhatsApp, ela poderá postar o que está almoçando, pelo Skype verei seu novo corte de cabelo, pelo Face irei acompanhar suas fotos e bateremos papos digitais, coisa, aliás, que absurdamente já fizemos estando ela no seu quarto e eu na sala. Então, o que significa, mesmo, distância?

Nos dias atuais, as distâncias tornaram-se bem menos dramáticas, não há mais invisibilidade e silêncio, estejamos a poucos metros ou a muitos quilômetros da pessoa amada. O toque continua restrito aos corpos presentes, mas já não perdemos ninguém de vista. E isso nos libera para sofrer menos e pensar com mais positivismo sobre as separações.

Desde que a colocaram nos meus braços, na maternidade, percebi em seus olhos que ela não se conformaria com os limites impostos pela segurança de uma vida regrada. Sempre considerou o mundo seu quintal. A palavra estrangeiro nunca encontrou lugar em seu vocabulário. Todos os seus objetivos foram tratados como realizáveis, independentemente de onde, de quando, de quem, de como.

Os filhos voltam, quase todos. Nem que seja para nos visitar. Se ela não vier, eu irei até ela, não é esta a questão. O que me sensibiliza é que a nossa vida está mudando – mais uma vez. Um ciclo se encerra para dar início a outro. A família até então estruturada se decompõe para que cada um de seus membros forme outros núcleos, novas rotinas. Ela voltará um dia, mas para morar em seu próprio apartamento. Ou voltará para morar em São Paulo. Ou voltará casada. Voltará – mas nunca mais a mesma. O que vivemos juntas nesses últimos 23 anos virou memória desde ontem. A partir de agora, estaremos iniciando uma viagem inédita ao futuro, estando aqui ou estando fora.

Não posso ficar triste, mesmo com o coração apertado. É da vida esse chamado, que é atendido por aqueles que têm coragem de partir e mais coragem ainda de chegar. De chegar neles mesmos, que é onde cada um, não importa a via escolhida, confirma a razão da própria existência.


Jornal Zero Hora - 11 março 2015
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terça-feira, 10 de março de 2015

Barbara Palvin / Female Models, Black and white photography

"Estou namorando a vida. 
Casei com a felicidade. 
Sou amante da alegria. 
Divorciado da tristeza. 
E de vez em quando, dou uns pegas na loucura."


(Samuel Rodrigo)

sábado, 7 de março de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/03/15

Oficialmente adulta

Adolescente, passei de ano. Por média.

No ano seguinte, fiquei em recuperação, mas passei de novo.

Já não era tão obediente. Enfrentava os pais. Achei que assim viraria uma adulta.

Ilusão.

Transei pela primeira vez. Aprendi o que era amor, porém mais adiante me atrapalhei com a dor, não soube rimar os dois.

Comecei a trabalhar. Ganhar dinheiro nos dá alguma independência, mas ainda não. Adulta mesmo, ainda não.

Formatura, o próprio nome diz. Formada. Feita. Pronta. Habilitada. Parece que sim, mas ainda é uma ilusão, apenas nomenclatura, força de expressão.

Carteira assinada, avancei na profissão e fui morar sozinha. Adulta, por fim. Mas tinha medo na hora de dormir, não sabia preparar um reles macarrão, comia congelados e a roupa ainda era lavada no tanque da família. Só morar sozinha não basta.

Ganhei prêmios, fiz um nome, aumento de salário. Para logo ali na frente ser demitida por ausência de esforço, a cabeça mais para poesia do que para prosa. Adulta eu parecia, mas no fundo eu sabia que faltava.

Li tudo o que caiu em minhas mãos. Velhos safados, romances policiais, literatura feminista, novos autores, realismo fantástico. Peguei emprestado um monte de sabedoria para elaborar a minha.

Sobrevoei o oceano, viajei só com minha mochila, percorri países em trens, dormi na casa de estranhos, fiz uma verba minúscula render dois meses e voltei sem nenhuma cicatriz e com autoconfiança escapando pelos bolsos. Parecia adulta, mas então as perguntas não respondidas voltaram a assombrar.

Dependia de outros aniversários para declarar-me pronta.

Casei. Virei a senhora de alguém, a senhora de mim mesma. Engravidei. Duas filhas. Casa própria. Perigosamente, a vida ganhou um sentido.

Separei. Recomecei. O sentido mudou.

Os versos que fazia de brincadeira evoluíram para alguma coisa de verdade e eu virei, de repente, escritora.

E como escritora inventei respostas, amadureci em público, acreditaram em mim mais do que eu mesma acreditava, estive muito perto, perto mesmo, de ser declarada oficialmente adulta.

Um dia antes da posse é que a gente descobre.

Não é o amor sacramentado, não é o destino honrado, não é o rosto marcado, não é o corpo amaciado, não é o sofrimento acumulado, não é o cérebro bem ensaiado, não é a quilometragem rodada, não é nada disso que nos contaram.

Oficialmente adulta me declarei no instante em que descobri que nenhum mistério se decifra e que sempre saberei muito pouco. As perguntas se renovam, acumulam, vão e voltam trazendo ainda mais indagação. Porém, a incerteza de repente deixa de assustar, a vida vira um passeio, aprende-se a gostar das pausas, já não é preciso nenhuma perseguição.

Oficialmente adulta, por fim?

Pensando bem, quase lá, mas ainda não.



Jornal Zero Hora - 08 março 2015
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