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domingo, 26 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 26/04/15

Os Largados

Sem computador, sem televisão e sem bateria

no celular, me restou o ato heroico de ler um livro

Antigamente eu rosnava a cada vez que ficava sem luz em casa. Agora até festejo, e não só pela economia na conta. Dias atrás, a energia elétrica caiu às quatro da manhã e só retornou perto do meio-dia. Sem computador, sem televisão e sem bateria no celular, me restou o ato heroico de ler um livro do começo ao fim, de um fôlego só. Por sorte, Os Largados, do italiano Michele Serra.

Divertir e comover. Combinação diabólica plenamente atingida pelas 125 páginas que contam a história de um pai exasperado com o filho de 19 anos que vive entocado com seus gadgets eletrônicos. Um guri que não conversa, se veste com molambos, come no sofá, não vê a cor do céu, enfim, desperdiça sua juventude.

Enquanto o pai busca caminhos para se conectar com essa criatura amorfa (caminhos inclusive no sentido literal: acredita que se conseguir convencer o garoto a acompanhá-lo numa trilha, nem tudo estará perdido), vai elaborando mentalmente um livro que sonha em escrever sobre uma fictícia Guerra Mundial entre Jovens e Velhos. E é aí que Os Largados diz a que veio.

É só olhar para trás e lembrar as inúmeras diferenças que tínhamos com nossos pais. Quem não? O conflito de gerações é um clássico na vida de qualquer um. Porém, essa guerra se dava no mesmo campo de batalha. Podíamos pensar de forma distinta, mas comíamos todos à mesma mesa, a música vinha do único equipamento de som instalado na casa, fazíamos passeios familiares, conversávamos – ou discutíamos, brigávamos, que seja, mas dentro de um universo comum.

Não é mais assim. Diz o pai ao filho, no livro: “Agora tenho a sensação – a suspeita? o terror? – de uma mutação tão radical que dificilmente, um dia, poderemos nos reconhecer, você e eu, no mesmo prazer”. E continua: “Partiu-se uma corrente – da qual eu sou o último elo”.

A questão é: que novas correntes estarão sendo formadas pela garotada que não lê, que se comunica à distância com os outros, que perdeu o idealismo, que fica zonza e por vezes até paralítica diante das variadas opções disponíveis de sexo, amor, carreira?

Estão 100% plugados, mas cada vez mais desconectados de nós, os últimos analógicos desta era. Largados num novo mundo que está sendo construído à nossa revelia. Não, o livro não é pessimista ou trágico, ao contrário. É extremamente engraçado, mas com uma graça firmemente apoiada na inteligência, na ironia e na reflexão. E dá o devido espaço a uma emocionante descoberta: nesta guerra entre jovens e velhos, a razão circula entre os dois exércitos e tem múltiplas formas de se apresentar.

Leia, porque o livro é muito bom. E também porque livros, este ou qualquer outro, continuam sendo fornecedores de uma energia que se mantém on em qualquer circunstância. O cérebro não cai.



Jornal Zero Hora - 26 abril 2015
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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22/04/15

FORÇA MAIOR

Vou contar o início do filme Força Maior. Não é spoiler, pois esta cena importante, que desencadeia todo o resto, já foi comentada em outras resenhas, mas é melhor avisar.

Uma família convencional (mãe, pai e um casal de filhos pequenos) vai passar seis dias esquiando nas montanhas. Na manhã do segundo dia, estão num avarandado ao ar livre, almoçando, quando percebem uma pequena avalanche na montanha em frente. Em princípio, tudo bem, são comuns as avalanches controladas, mas esta parece ligeiramente descontrolada, até que, por precaução, as pessoas em volta começam a se levantar das mesas, ouvem-se gritos e então o caos se instala: tudo indica que a neve soterrará a todos.

Diante do perigo súbito, o pai pega seu celular e corre para longe. Deixa a esposa e as duas crianças para trás, que se agacham e esperam pelo pior – mas nada acontece. Ou acontece?

O pior, no caso, seria um acidente com mortos e feridos, mas não: apenas uma névoa seca cobriu o ambiente e logo todos voltaram a seus lugares. O pai retorna a seu assento e a família prossegue com o lanche, mas dali em diante nada mais será igual, pois aconteceu, sim, o pior. Aquele pai fez o que não se espera de seu papel tradicional: fugiu sem pensar em mais ninguém.

A maneira como o filme foi dirigido faz a gente sentir uma angústia similar à de cada membro da família. Ninguém mais sabe como deve se comportar. Tudo era tão certinho entre aqueles quatro, as “avalanches” emocionais eram sempre tão controladas, e, de repente, a descoberta: pessoas seguem impulsos, têm ímpetos, se desgovernam.

Poderíamos reduzir o filme a uma questão trivial: os homens não seriam tão protetores quanto as mães, mas isso é uma falácia. O que o filme mostra é que criamos um padrão de comportamento que sustenta nossas emoções, e nos desestabilizamos quando esse padrão é quebrado.

Em uma cena significativa, a mãe conversa com uma turista que está no mesmo hotel e que, apesar de casada e com filhos, está viajando sozinha e tem algumas aventuras sexuais com outros hóspedes. São duas mulheres com visões antagônicas sobre o casamento – uma é conservadora, a outra, extremamente liberal –, mas o que poderia ser uma simples troca de experiências descamba para uma cobrança raivosa. A mãe não consegue disfarçar sua perplexidade (e uma pontinha de inveja, suponho) diante daquela estranha que se permite viver de forma tão livre, arriscando perder seus afetos. De que, aliás, a outra discorda, pois acredita que é justamente a honestidade em relação a seu desejo que fortalece seus vínculos.

Não temos domínio sobre ninguém, e o domínio que temos sobre nós mesmos é relativo. O que o filme deixa claro como a neve é que, se queremos tanto nos sentir protegidos, um bom começo seria aceitar que estamos deslizando em meio ao risco o tempo todo. Incluindo o risco de agirmos como nunca imaginamos.



Jornal Zero Hora - 22 abril 2015
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sábado, 18 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 19/04/15

Camarim

O que eu menos queria naquele momento era comer, mas e a desfeita?

E o desperdício?

Como se sabe, escritores são convidados a palestrar em Feiras do Livro, Bienais e demais eventos literários. É uma forma de passar nossa experiência adiante, de estimular a leitura, de conhecer os leitores e de faturar um cachezinho, já que também pagamos contas.

Trilhei o Estado e boa parte do país realizando esses encontros, porém hoje quase não viajo a trabalho: preciso ficar mais tempo em casa escrevendo, as demandas aumentaram. Mas, de vez em quando, abro exceções, como quando estive numa cidade do interior do Rio. Tinha mesmo que ir para a capital, então dei uma esticada. Tudo certo, até que, dias antes de eu embarcar, a organização do evento me enviou um e-mail pedindo que eu fizesse as exigências de camarim.

Como é que é? Por alguns segundos, me senti o Axl Rose. A Lady Gaga. Me vi diante daqueles espelhos circundados por lâmpadas e elaborei mentalmente uma lista básica: champanhe brut, queijos franceses, bombons trufados, patê de foie gras, torradas italianas e Coca-Cola com meu nome no rótulo, ou nada feito. Acordei do transe com minha própria risada.

Respondi: olha, nem imaginava que haveria um camarim, mas, havendo, ficaria feliz com um banheiro e água mineral. Muito grata, até breve.

Eu não sabia, mas o bate-papo seria no sambódromo local. Havia centenas de pessoas me aguardando. Fui conduzida ao camarim por guarda-costas. Tinha alguma coisa errada: será que me confundiam com a Rihanna? Atravessei um longo corredor no backstage e por fim abriram uma porta com uma estrela dourada, como nos filmes.

Ao entrar, me deparei com uma mesa que humilharia nossos cafés coloniais. Nunca vi quantidade igual de frios, pães, salgadinhos, cachorrinhos, sanduíches, cupcakes, minipizzas, canapés, amanteigados. E, no centro, um grande pote de vidro repleto de MM´s coloridos. Lembrei da banda Van Halen, que sempre exige MM´s antes dos shows, só que sem a casquinha que reveste o chocolate. Os meus tinham a casquinha, era a graça da coisa. Guloseimas com monograma.

Tive vontade de chorar. O que eu menos queria naquele momento era comer, mas e a desfeita? E o desperdício? Havia umas quatro pessoas esperando eu avançar, incluindo um fotógrafo. Alcançavam guardanapos e sugeriam: comece por este, não deixe de provar o folhado, esse bolinho foi minha tia que fez, aquele papo-de-anjo é o predileto da prefeita.

Minha conversa com o público durou uma hora e meia, e passei o tempo todo aflita com um miolinho de pão que teimou em se instalar entre o incisivo e o canino superior. Essa coisa de escritor ser tratado como astro pop, convenhamos, é meio constrangedor. Mas, por via das dúvidas, incluirei na minha próxima lista uma dúzia de escovas de dente. Com cerdas de nylon ultra soft e de alguma marca dinamarquesa, pra não me mixar.


Jornal Zero Hora - 19 abril 2015
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- Pure Innocence by Rishit Temkar

"Porque a vida é inesgotável. Hoje eu deixo queimar o bolo, 
amanhã não queima. O tomate hoje está bom, amanhã não 
está. É tudo muito variável na sua identidade. É igual mas é 
diferente. É muito rico. De tédio, ninguém precisa de 
morrer. Só se for muito bobo. Bobão mesmo.

A vida é rica demais da conta."


(Adélia Prado)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

"Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano..." (ana jácomo)

“A felicidade precisa estar onde nós estamos, não importa quantos 
sonhos ainda temos para passar a limpo com as nossas ações. 
Não importa o tanto de realizações que ainda podemos concretizar. 
Não importa quantas pendências nos aguardam. 
Ou ela está onde nós estamos ou não está em lugar nenhum.”



(Ana Jácomo)

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 15/04/15

Amor a distância

Homens e mulheres têm viajado pra lá e pra cá e, mesmo quando em casa ou no trabalho, não param de se comunicar com nativos de outras cidades através das redes sociais. Logo, é natural o incremento de parcerias amorosas entre pessoas que residem a quilômetros umas das outras. O par protagonista do filme Ponte Aérea, que estreará amanhã em Porto Alegre, é só mais um entre tantos. Ela, interpretada por Leticia Colin, mora em São Paulo, e ele, vivido por Caio Blat, no Rio. Considerando o tamanho do planeta, praticamente vivem a uma esquina de distância.

No entanto, o ótimo e delicado filme de Julia Rezende vai além desse pequeno inconveniente geográfico. O que vemos na tela é o retrato da fragilidade das relações numa era em que todos estão ocupados demais para se entregar a alguém. O casal do filme é jovem, ambos estão em início de carreira e, segundo a diretora, são representativos de sua geração: fazem mil coisas ao mesmo tempo, atuam em todos os canais e mídias possíveis, querem engolir o mundo, mas morrem de medo de ser engolidos por ele.

Afinal, com tantas solicitações, compromissos, projetos e alternativas, sobrará tempo para se dedicar a um envolvimento profundo?

Não sei se esta é uma questão só dos jovens. Hoje, entre os avulsos de todas as idades, existe o mesmo pé atrás. Os solteiros que nunca foram casados antipatizam com a ideia de se amarrar sem antes fazer um test drive em todas as outras opções possíveis – o que levaria umas três vidas, por baixo. E os solteiros que já passaram por uma ou duas uniões estáveis e já viveram seu “eterno enquanto dure” não morrem de amor pela ideia de ter que voltar a prestar contas, negociar, conceder, programar, comprometer-se.

Virou exagero se doar. A ordem agora é se emprestar. Toma aí um pouquinho de mim, mas me devolve.

Resultado? Um sem-número de relacionamentos a distância, mesmo o casal sendo vizinho de bairro. Os dois sentados à mesma mesa, mas cada um teclando seu smartphone. Os dois saindo de férias, mas cada um para um destino diferente. Os dois com problemas, mas sem disposição para conversar a respeito. Os dois com muitos planos, mas sem nenhuma intenção de abrir mão do seu sonho em função do sonho do outro. Os dois com dúvidas, mas sem reparti-las para não ter que se explicar muito. Os dois juntos, mas não por inteiro, que nada mais é inteiro, tudo é fragmentado.

É uma contingência dos novos tempos, reconheço, mas não impede que a relação evolua. Que o namorico, a ficada, o rolo, o lance, o caso, a pegação se transforme em amor. E amor a gente não empresta, entrega de bandeja. É quando a distância deixa de existir. Mesmo um lá e o outro acolá, ela será suprimida por algo que verdadeiramente unifica: vínculo.



Jornal Zero Hora - 15 abril 2015
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domingo, 12 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/05/15

ZZZZZZZZZ

O sono profundo talvez seja uma recompensa apenas aos que se esgotam em viver bem

Durmo bem, mas apenas seis horas por noite. Gostaria que fossem mais. Como você é bom de matemática, já fez as contas: se adormeço às 23h, acordo às 5h. Se adormeço às 23h30min, acordo às 5h30min. E o que faz uma pessoa que acorda às 5h30min? Fica tentando dormir um pouco mais e às vezes até consegue uma cochilada extra, mas o corpo e a mente já descansaram o suficiente e querem sair logo da cama para mostrar serviço. Acordar cedo é um hábito saudável, reconheço, mas inclusive nos fins de semana e feriados?

Deixei de reclamar depois que li Sono, do celebrado escritor japonês Haruki Murakami, que entre outros livros escreveu Do que eu falo quando eu falo de corrida. Com sua prosa seca e objetiva, agora ele conta a história de uma mulher que, de uma hora para outra, deixa de dormir. E não sente falta. Está há 17 dias sem pregar o olho e tinindo.

De certa forma, um terceiro turno acordado é tudo o que sonhamos, já que tempo virou artigo de luxo. Não seria uma bênção ter oito horas a mais no dia, todos os dias? Imagine. Oito horas sem tráfego, sem barulho, sem compromissos – e sem fadiga. Oito horas a mais para desenvolver um hobby, para pedalar por ruas vazias, para o sexo, para organizar gavetas, para testar receitas, para ouvir música, para olhar para o teto, oito horas para o que bem entender. Menos dormir.

É possível que, se tivéssemos essas hipotéticas horas suplementares, as gastaríamos nas redes sociais, bisbilhotando o Facebook dos outros, dialogando com outros insones, compartilhando vídeos, fotos e textos que falam por nós. Ou seja, daríamos continuidade ao isolamento a que nos autoimpomos desde que nos viciamos no contato online.

Mas a fictícia personagem de Sono não cai nesta. Usa suas horas noturnas para reler romances que já havia lido anteriormente, mas que não havia prestado atenção. Agora, no silêncio de sua nova condição de zumbi e a fim de se reconectar consigo mesma, ela percebe nuances que nunca havia percebido nas histórias – e, junto, descobre o real sentido da palavra concentração.

Chegaremos a esse ponto de precisar de um terceiro turno insone para nos mantermos despertos para o que verdadeiramente importa? Francamente: não dormir é um pesadelo. Precisamos dormir. O corpo precisa. A mente precisa. Por que será que 16 horas alertas não têm nos bastado?

O livro é de uma simplicidade perturbadora. Termina de forma enigmática e deixa reflexões no ar. De minha parte, fiquei com a sensação de que as pessoas não estão descansando à noite porque não estão se cansando de dia com coisas que valham a pena – apenas cumprem tarefas enfadonhas e à noite se culpam pela maneira como estão desperdiçando seu tempo. O sono profundo talvez seja uma recompensa apenas aos que se esgotam em viver bem.



Jornal Zero Hora - 12 abril 2015
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quinta-feira, 9 de abril de 2015


��


"Saudade é coisa que fica. 

Não pela ausência de quem amamos, 

mas pelo excesso do que vivemos."


(Cáh Morandi)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/04/15

Wimbelemdon

Em meio ao nosso descrédito com o país, vale destacar uma ONG que é da maior relevância e que merece o nosso apoio: o projeto Wimbelemdon, do Marcelo Ruschel.

Há 15 anos, Marcelo sustenta uma área em Belém Novo voltada para meninos e meninas em estado de vulnerabilidade social que são reintegrados à comunidade através do tênis. Além de praticarem o esporte, eles têm aulas de matemática, português e inglês, e também oficinas de leitura e cinema.

Quando completam 18 anos, são desligados do grupo, porém encaminhados ao mercado de trabalho. O projeto, além de ter ganhado vários prêmios internacionais, tem o apoio de Guga, Meligeni, André Sá, Thomas Koch, entre outros expoentes do tênis brasileiro, e tal é a expansão de suas conquistas que já alcançou a admiração também de Nadal e Federer.

Só que tem um probleminha. O terreno onde está a sede da escola foi colocado à venda, e se for parar em outras mãos, Marcelo terá que recomeçar do zero. Ele não tem condições de, sozinho, bancar essa compra, já basta o que investe para manter o projeto funcionando. Então lançou uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) chamada Fixando Raízes, em que pretende sensibilizar a população para a causa.

É preciso arrecadar R$ 400 mil até o final de junho. O país está paralisado diante das incertezas da nossa economia e os empresários puxaram o freio de mão. Então, que tal a gente mesmo ajudar? Ao abrir a página da campanha (www.kickante.com.br/campanhas/fixando-raizes-wimbelemdon), basta clicar em “quero contribuir”.

O valor mínimo para doação é de R$ 15. Ou você pode optar por recompensas exclusivas com valor fixado, e aí receber o livro do Guga autografado, uma camiseta ou raquete do Nadal autografadas, e até jogar uma partida de tênis com o Meligeni. A raquete do Federer em breve também entrará no rol. Dá uma espiada lá.

Mas voltando ao preço mínimo: R$ 15 já ajudam. Por R$ 15, você não ganhará suvenires espetaculares, a não ser a consciência de estar colaborando com um projeto que visa tirar crianças da marginalidade para inseri-las numa sociedade focada em educação, cultura, trabalho e ética – sem partido político envolvido.

Conheço o Marcelo Ruschel desde quando a gente ainda não sabia o que queria ser quando crescesse. Fotógrafo talentoso, autor dos clicks mais antológicos do primeiro Rock in Rio, foi também fotógrafo exclusivo do Guga na época em que o catarinense brilhou em Roland Garros, até que largou a fotografia para fundar o Wimbelemdon. Marcelo é um cara que não está aqui a passeio. Quer deixar esse mundo melhor do que encontrou.

Tomara que consiga. Eu já colaborei. Sua vez.



Jornal Zero Hora - 08 abril 2015
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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 05/04/15

A vida, uma experiência


A ideia é não acionar o piloto automático, mas assumir o manche

De uns tempos para cá, as agências de viagens mais antenadas deixaram de oferecer pacotes turísticos incluindo apenas estada, passagens e visitas guiadas às principais atrações. O turista exigente deseja mais do que um lugar para dormir e uma selfie junto à Torre Eiffel.

Ele não quer apenas viajar, ele quer viver uma experiência, e isso inclui passeios de balão, acampamentos no deserto, uma ceia ao luar sobre a areia da praia, mergulho nas águas secretas de uma caverna, uma excursão de bicicleta em meio a ruínas ancestrais, uma aula de surfe num paraíso indonésio, escalar um vulcão ativo, participar de uma cavalgada, fazer meditação no topo de uma montanha. Não apenas ver o Big Ben, a Torre de Pisa, a Estátua da Liberdade, click, click, click e voltar pra casa.

Às vezes fico pensando se não deveríamos viver o dia a dia com esse mesmo espírito de aventura. A rotina impõe suas limitações, é vero, mas não custa expandir a mente e tentar – ao menos tentar, dentro das nossas possibilidades – fazer diferente.

Qual a graça de sair apenas com quem é igual a você? Que sempre frequentou os mesmos locais, conhece as mesmas pessoas e não irá lhe contar nada palpitante, nada que faça você morrer de rir, ou ficar admirado, ou pensar com seus botões: como é que não imaginei isso antes? A experiência de conviver com alguém que habite outro universo pode ser excitante e prazerosa, pois abre novos portais (porém, se o projeto for casar na igreja e gerar meia dúzia de filhos, é mais seguro apostar na alma gêmea para ter menos sobressaltos, combinado).

Caso você já esteja bem casado e com a vida ganha, ainda assim, por que não se desacomodar um pouquinho? Em vez de cumprir tarefas, viver experiências.

Não tem passeio de balão em Porto Alegre? Podemos cruzar o Guaíba de catamarã. Não temos deserto onde acampar? Podemos fazer um piquenique com os amigos num parque. E assim sucessivamente, usando a criatividade, buscando alternativas.

Quando falei lá no primeiro parágrafo em ceia ao luar sobre a areia da praia, é bem verdade que em meus delírios imaginava uma praia de mar cristalino cercado por falésias, com um clima romântico e música suave, mas nada impede de você levar sua churrasqueira portátil e o isopor para a beira da praia do Cassino, com o porta-malas do carro aberto para curtir seu pagodão. Também é uma experiência, vou eu negar?

A ideia é não ficar na plateia, mas entrar em cena. Não repetir os dias, mas torná-los únicos. Não acionar o piloto automático, mas assumir o manche.


Não toda hora, nem todos os dias, pois banalizaria as extravagâncias e, além disso, a vida real costuma nos chamar de volta para dentro do escritório, mas, de vez em quando, que sejam bem-vindos os sobressaltos, para lembrar que o coração não parou.



Jornal Zero Hora - 05 abril 2015
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In solitude, the mind gains strength and learns to lean upon itself. ~Laurence Sterne


"...E eu só penso em telefonar para dizer que estou pequena

 e que um abraço resolveria as minhas distâncias."




(Priscila Rôde)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 01/04/15

Não pegue essa carona

A atitude do copiloto que voava de Barcelona para Düsseldorf foi estarrecedora, pra dizer o mínimo. São muitas as perguntas: uma pessoa profundamente deprimida pode perder o discernimento entre certo e errado? Andreas Lubitz teria se inspirado no primeiro episódio do filme Relatos Selvagens? Ter seu nome reverberado pelo mundo é motivação suficiente para uma insanidade cuja repercussão ele nem testemunharia, já que o insano também morreu?

Conduzir um avião lotado em direção a uma montanha a fim de espatifá-lo é um caso isolado. Lamentamos, perplexos, mas não temos medo de que venha a acontecer de novo, ao menos não tão cedo. No dia seguinte à tragédia, embarquei num avião e nem por um segundo pensei que na cabine de pilotos pudesse estar alguém incapacitado para realizar sua tarefa e com ideias estapafúrdias na cabeça. Essas coisas simplesmente não se repetem com trivialidade.

Não se repetem num avião, mas e nas estradas, e nas ruas? Inúmeros ônibus de turismo despencam ribanceira abaixo porque o motorista corria demais ou porque dormiu ao volante, e por causa de sua pressa e cansaço levam várias vidas embora com ele. Não é considerado suicídio porque não foi de propósito, mas o propósito pode se esconder em camadas menos aparentes. Ausência de responsabilidade pode ser um jeito escamoteado de cair fora.

O cara que atravessa três noites sem dormir e pega um carro. O cara que pega um carro e dirige a 180 km/h. O cara que dirige a 180 km/h pelo acostamento. O cara que dirige pelo acostamento de um penhasco. São várias tentativas de se matar sem dar na vista, sem assumir nem para si mesmo o que está fazendo.

O problema é que, não sendo uma tentativa de suicídio assumida, dá-se carona.

Não foram poucas as vezes em que eu disse para um motorista destemido: quer se matar, deixa eu descer antes, não me leva junto. Soava dramático, mas funcionava. Graças a um resquício de noção, o sujeito tirava o pé do acelerador.

Há sempre alguém por perto que tem menos amor à vida. Ou menos condição psicológica. Ou menos sensatez, menos senso de dever, menos tolerância a seguir regras – vá saber. E, uma vez que não se preocupa com o perigo que corre, envolve outras pessoas que poderão ser passageiros de uma viagem com destino indesejado.


Então, abandone os táxis que voam pelas avenidas. Assuma o volante de carros de namorados que estão sem condição de dirigir. Denuncie motoristas de ônibus que estão pisando fundo. Não ande com gente armada. Afaste-se de quem é muito estourado. As inocentes vítimas do voo da Germanwings não tiveram nenhuma dessas prerrogativas porque existia uma cabine trancafiada e um propósito consciente. Mas sejamos sensíveis aos propósitos inconscientes.


Jornal Zero Hora - 01 abril 2015
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