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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 20/07/16


Perguntas que me faço


- A não ser para quem está fugindo da polícia, qual a vantagem de um carro ir de 0 a 100 km/h em sete segundos?

- Alguém gosta de receber telefonemas de telemarketing aos sábados e domingos? (Perceba a condescendência nos outros dias da semana.)

- Os prazos de validade carimbados nos produtos são quase sempre muito pequenos ou muito borrados. Má-fé ou o quê? - Não seria um abuso os restaurantes cobrarem em média 100% a mais sobre o preço de custo de uma garrafa de vinho?

- Qual é a dificuldade de estacionar o carro entre as duas faixas que delimitam uma vaga? A pressa seria tanta, que justificaria largar o carro de qualquer jeito, ocupando duas?

- Alguém decide o voto pelos beijos que um candidato distribui em bebês e pela coragem em comer pastéis de procedência duvidosa?

- Não lembro ter visto um jogador de vôlei ou um nadador colocar o dedo na boca pedindo silêncio à torcida adversária depois de marcar um ponto ou quebrar um recorde. Por que alguns jogadores de futebol insistem em fazer o gesto presunçoso de “calar a torcida” depois de um gol?

- Quem mede os metros de distância obrigatórios que a Justiça determina entre namorados que saíram no tapa? - Se Deus fosse mulher, teria descansado no sétimo dia?

- “Os bons vão primeiro” pode ser um consolo para a morte de um jovem, mas isso significa que fazemos parte da turma dos “vasos ruins”?

- Qual o motivo de exigir que os passageiros façam o check-in no totem e só depois despachem a mala no balcão do aeroporto? Não era melhor antes, quando se fazia tudo de uma vez? Totem deveria atender apenas quem viaja com bagagem de mão.

- Só eu fico feito uma barata tonta quando os supermercados trocam os produtos de lugar? - Por que a finada atriz Nair Bello é a musa das palavras cruzadas?

- Melania Trump não teve vergonha de plagiar o discurso que Michelle Obama fez em 2008. Será que o plano é não ajudar o marido bufão a ser eleito? (Tomara que funcione.)

- Você é um doido varrido que simpatiza com o Estado Islâmico, mas tem três filhos. Que chave desliga no cérebro para conseguir passar com um caminhão por cima dos filhos dos outros?

- Penso que extremistas se envolvem em ações suicidas para garantir um grand finale à sua vida medíocre, mas se for verdade que eles acreditam que serão recompensados com 72 virgens durante a vida eterna, não estarão valorizando o savoir vivre que tanto condenam?

- Aliás, quem em sã consciência deseja a vida eterna?




Jornal Zero Hora - 20 julho 2016
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♥:

"Que a gente lembre, que não é eterno, 

enquanto dura. Pra cuidar direito.”



(Louise Madeira)

domingo, 17 de julho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 17/07/16

Um meio louco e outro também

A peça A reunificação das duas Coreias (em cartaz no Rio e que virá para o Porto Alegre Em Cena) é daquelas que a gente sai sem entender direito o que aconteceu. Vai compreendendo aos poucos, durante o trajeto entre a saída do teatro e a chegada em casa, talvez ainda sem saber se gostou ou não, mas reconhecendo que, de alguma forma, foi atingido. A montagem reúne 18 esquetes independentes contando rápidas histórias sobre relacionamentos. Os sete atores são ótimos. A direção de João Fonseca é empolgante. O texto do francês Joël Pommerat é aparentemente simples, o subtexto é que é potente: as palavras, no amor, mais atrapalham que ajudam.

Logo no início, uma das várias personagens interpretadas por Louise Cardoso sentencia: o amor é ainda mais bonito quando é complicado.

Foi dada a largada para o que virá: uma sequência de cenas meio reais, meio absurdas. Um casal se separa porque tudo entre eles é perfeito, porém não há amor. E outro se separa porque nada dá certo entre eles, mesmo havendo amor. O lógico e o ilógico flertando descaradamente na nossa frente.

O desejo simultâneo de ficar e ir embora – quem nunca? Passar da adoração ao ódio em poucos minutos – quem nunca? E tem as autodefesas. Aquele que esbraveja, amparado em seu ceticismo, que o amor não existe, que não passa de uma reação neuroquímica, sofre o diabo por causa dele, claro.

O medo que sentimos de pessoas 100% verdadeiras. Por que elas não entram no jogo e fingem como todo mundo? Nada mais estranho e amedrontador do que alguém que garante estar no controle de suas emoções.

Lidar com coisas que parecem (cantadas, confissões, insinuações), mas não são. Ou que são (cantadas, confissões, insinuações), mas não parecem. De deixar qualquer um doido.

Não por acaso, o que mais se houve em meio aos embates cênicos da peça é: “Você está louca!”, “Você é que é louco!”. Queremos nossa porcentagem nos royalties. Esse melodrama é nosso.

Quem se recusa a amar está se recusando a viver o jogo mais arrebatador da vida. De fato, é tudo uma maluquice, pois dois universos tão distintos (você e sua herança familiar, o outro e a herança dele) têm disparidades que deflagram inúmeros curtos-circuitos, e mesmo assim a gente tenta, a gente insiste, a gente acredita que pode ser feliz. E consegue, mas não o tempo todo. “Todo” e “tudo” são abstrações que perseguimos com a inocência que nos resta.

É assim, fazer o quê? São sempre dois birutas, um do norte, outro do sul, unindo-se com a intenção de alcançar alguma coesão nessa batalha perdida (love is a losing game), mas delirantemente apaixonante.


Jornal Zero Hora - 17 julho 2016
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Instruções para abraçar

estique os braços o máximo que puder
acolha a outra pessoa como quem abraça um sonho
sintonize os corações para que batam no mesmo compasso
deixe a cabeça ir morar no ombro alheio
feche os olhos
respire fundo
já não existe nenhuma fronteira
os corpos já se misturaram


(Zack Magiezi)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 13/07/16

Não pode ser em vão


Uma das lembranças mais nítidas e profundas da minha infância está relacionada à sala de estar onde meu pai se instalava para ouvir música depois de chegar do trabalho. Ele era o DJ da família. Com a mulher e os filhos em volta, colocava para tocar o melhor da MPB e também Burt Bacharach, Ray Charles, Astor Piazzolla e Beatles. Se comparado a outros pais da época, um homem antenado e de bom gosto, mas o que mais me surpreendia era a paixão que ele tinha por uma maluca de voz rasgada que usava óculos redondos e umas mechas coloridas no cabelo. Foi ele que me apresentou Janis Joplin.

Nesta semana, meu pai completa 80 anos e ainda é alucinado por música, apesar de hoje estar mais para Schubert do que para o rock e o blues. Um dia chego lá – na música clássica. Ainda estou presa aos rebeldes que cantam com o nervo exposto, e ao assistir ao documentário Little girl blue, sobre Janis, voltou tudo: a infância, minha adolescência, minha formação musical e a lembrança de como me tornei quem sou.

O filme só é recomendável para quem é fã da cantora. Os primeiros 20 minutos são enfadonhos e não é uma grande realização cinematográfica – vale pelo espólio artístico de Janis. A história da menina fora dos padrões, que se achava feia e que era esnobada pelos rapazes, mas que acabou se encontrando na música e através dela escancarou toda a sua carência, toda a sua necessidade de ser amada, toda a angústia e o medo de que sua vida fosse vivida em vão.

Sabemos como esta história terminou: ela foi mais um talento que saiu de cena aos 27 anos por causa de uma vida embalada por muita bebida e droga, a exemplo de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse.

Admiro os talentos de cara limpa (nem todos os meus heróis morreram de overdose, a maioria deles segue viva e sóbria), mas arrasto uma asa para aqueles que entregam a alma e dão saltos sem rede. Saí do cinema tentando lembrar quem são hoje os artistas vulcânicos, aqueles que realizam sua arte às ganhas, e, talvez por estar condicionada pelo filme, só me vieram à cabeça Cássia Eller, Cazuza, Renato Russo, Tim Maia, Raul Seixas. Os que já se foram.

Eu sei, os tempos são outros. Tanto aqui quanto lá fora, são inúmeros os artistas que superaram a fase das viagens lisérgicas e se mantiveram criativos e operantes (o que dizer de Keith Richards, que ainda enterrará a todos nós?), mas tenho um carinho quase maternal por aqueles que desceram muito fundo em busca de sei lá o quê. Os que não encontraram outra maneira de se conectar com suas emoções mais cruas, mais livres e incendiárias.

Janis Joplin, a exemplo de alguns de seus colegas doidões, não chegou nem perto dos 80 anos, mas, como eles, deixou um legado eterno.



Jornal Zero Hora - 13 julho 2016
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

ilustracao_frida_kahlo_12:

"Amuralhar o próprio sofrimento 
é arriscar 
que ele te devore a partir 
do teu interior."


(Frida Kahlo)

domingo, 10 de julho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 10 07 16

Tocar a felicidade com os dedos


Entendi que a felicidade não é um alvo concreto atingido, e sim a conexão profunda que fazemos com uma emoção subitamente despertada

Quase consigo visualizar a cena. O músico e poeta Serge Gainsbourg está em Londres, o ano é 1971. Numa clínica privada, sua mulher Jane Birkin está em trabalho de parto. Ele alterna batidas aflitas na porta do quarto com idas ao bar do outro lado da rua. Até que nasce Charlotte, que, por uma série de contingências e burocracias, é proibida de ser visitada pelo pai. Quatro ou cinco dias depois, ele recebe a permissão e, após vê-la, sai em caminhada pelas ruas. É madrugada. Chove. Ele anda a esmo por duas horas, em total estado de encantamento. Mais tarde, diria sobre o episódio: Nunca fiz um passeio mais feliz na minha vida. Naquela noite, toquei a felicidade com os dedos.

Pincei esse relato do ótimo livro de entrevistas Entre aspas 2, de Fernando Eichenberg. Fiquei alguns minutos pendurada nesta frase. Tocar a felicidade com os dedos.

Não costumamos ser muito delicados com a felicidade. Geralmente queremos conquistá-la, agarrá-la, retê-la e sorvê-la: verbos antropofágicos que induzem a uma dominação ansiosa e sem chance de fuga. Estamos sempre famintos dela e, quando a chance aparece, nhac. Garantimos nosso quinhão.

Você compra sua felicidade em butiques, agências de viagem, mesas de restaurantes, e depois a fotografa e posta no Instagram e no Face. Está capturada sua felicidade. Enquadrada. Sobrevivendo através da memória.

Mas não através da poesia. A felicidade não retribui a assédios grosseiros. Não gosta de muito barulho. Tem sensibilidade a holofotes. Quem gosta de festa é a alegria. A felicidade prefere ser encontrada – e tocada – com mais discrição e leveza.

Sentada numa pedra diante de um lago, eu estava só. O ano era 1986. Foi talvez minha primeira impressão de felicidade absoluta – tudo que eu havia vivido antes eram alegrias. Naquele exato momento que não tinha nenhuma importância, numa data que não era alusiva a nada, eu entendi que a felicidade não é um alvo concreto atingido, e sim a conexão profunda que fazemos com uma emoção subitamente despertada.

Você inaugura uma nova etapa de vida. Não teme mais as interrogações. Descobre-se capaz de amar num estado de pureza plena. Você se perdoa. Você se cura. Você se reconhece. Consegue ser grato por coisas mínimas. E por bênçãos extraordinárias. Você perde o medo da vida. Você entende o que está acontecendo. Você sente a potência de um sentimento especial sem precisar segurá-lo com as mãos, sem retê-lo com as palavras, sem sofrer pelo seu inevitável desaparecimento. O simples roçar de dedos no sublime garante a eternidade do instante.



Jornal Zero Hora - 10 julho 2016
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terça-feira, 5 de julho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 03 07 16

Mulheres e palavras surradas


Estar consigo mesma é companhia suficiente. Uma mulher sem homem tem mais valor do que uma mulher com um homem babaca, covarde, pequeno

Estamos em plena revolução feminista parte 2. Depois de inúmeras conquistas resultantes do surgimento da pílula anticoncepcional e da nossa entrada no mercado de trabalho, pausamos, recarregamos as baterias e agora voltamos à luta, rebatizada de empoderamento e direcionada, principalmente, à violência contra a mulher.

Acho empoderamento uma palavrinha detestável: é por causa da atração pelo poder que o Brasil está metido em encrenca e vive no atraso. Poder é um verbete obsoleto no meu dicionário. Troco empoderamento por conscientização e autoestima – autoestima também não é das melhores palavras, tornou-se um clichê, mas é do que precisamos.

Por que as mulheres são agredidas? Porque se envolvem com homens brutos, ignorantes, machistas: resposta simples. A resposta complexa vai um pouco além. Violência não deixa de ser um contato. O homem que bate no seu rosto, que queima seu braço, que chuta sua barriga e que puxa seu cabelo está enxergando você, está interagindo – da maneira mais cruel, mas está. Eis o perigo: a violência cria a ilusão de vínculo.

Para algumas, a indiferença pode ser muito mais atroz.

Por que ela não cai fora no primeiro tapa? Mulheres seguras não levam adiante uma relação agressiva, suspendem o ultimate fighting assim que ele começa e partem para outra história que seja realmente de amor, e não de carência, de dominação, de submissão. O primeiro tapa tem que ser sempre o último. Mas não é o que acontece: ele gera o segundo. Que gera o terceiro. Que gera todos os outros até a situação ficar insustentável. Decorre um longo tempo até chegar ao ponto do “não aguento mais”. Por que se aguentou tanto antes?

Dependemos do olhar do outro. Queremos ser admiradas, amadas, desejadas. Mas isso não deve valer para o olhar perverso que nos vê como um objeto onde descarregar frustrações. O cara não se suporta e desconta em você – é justo isso? E você segura a onda porque acha que o empurrão dele também é uma espécie de toque. Ele, através da pancadaria, está se relacionando com seu corpo e reconhecendo sua existência. A ausência do olhar dele – e do ataque dele – a transformaria em nada.

É por isso que aquela palavrinha surrada (ela também) tem que ser reforçada: autoestima. Não precisamos temer a solidão. Estar consigo mesma é companhia suficiente. Uma mulher sem homem tem mais valor do que uma mulher com um homem babaca, covarde, pequeno. Nenhuma intimidação é romântica. Sofrimentos emocionais são inevitáveis, mas ter o corpo submetido à violência física não dá poema, não dá filme, não dá nenhuma canção bonita. Tem que dar cadeia, apenas isso.

A grande revolução feminista passa pela consciência de que a solidão não é humilhante, a renúncia à nossa integridade é que é.



Jornal Zero Hora - 03 julho 2016
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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 29 06 16

A vida sob outra perspectiva


Uma relação amorosa vale quando você sai dela mais madura do que quando entrou. Uma viagem vale por termos voltado para casa mais abertos do que quando embarcamos. E um livro, mesma coisa: ele compensa quando a gente percebe que encerrou a leitura mais consciente do que quando a iniciou.

Foi esta a sensação que me deu ao terminar o livro da cantora Olivia Byington, O que é que ele tem. Conheço Olivia, já estivemos juntas algumas vezes, temos uma grande amiga em comum, mas nunca soube dos pormenores de sua vida íntima. Então, descubro que ela teve um primeiro filho com uma síndrome rara, e é sobre ele que Olivia escreve, escancarando um mundo novo para nós. Um mundo novo que não deveria ser novo, pois ela fala basicamente sobre delicadeza.

Acontece que a delicadeza tem sido mais rara do que a síndrome de Apert, que gera as terríveis deformações que tornaram o filho da Olivia diferente, e esse é o tema do livro: como lidar com a diferença. Não apenas a diferença entre uma criança com ou sem síndrome: a diferença entre um ser humano com delicadeza e outro não – e aí ela se refere a nós.

Eu sei que é difícil a gente não reagir com estranhamento diante do que é incomum, mas quanto tempo deveria durar um estranhamento? Em quanto tempo ele deveria evoluir para o acolhimento, o afeto, a compreensão?

O livro é tocante por inteiro, mas tem dois momentos que me emocionaram além do previsível. Um deles é quando Olivia narra a dificuldade em matricular o filho João nas escolas, e mesmo quando consegue, sofre com a maneira como ele é tratado. Ela então faz uma defesa incontestável da inclusão: quando uma criança com deficiência convive com crianças sem deficiência, são as “perfeitinhas” que ganham com isso, pois têm a oportunidade de desenvolverem a tolerância, aprenderem sobre superação e abrirem-se para a complexidade da existência. Óbvio. Olivia mostra com clareza como a convivência com os diferentes potencializa nosso aprendizado e nos faz valorizar ainda mais nossas bênçãos.

Outro momento que me fez suspirar. João passou por inúmeras cirurgias de reconstrução de face e órgãos, sofreu o diabo, submeteu-se a verdadeiros suplícios e flagelos para que seu organismo se adaptasse minimamente a fim de ter uma vida normal – um normal bem longe do que conhecemos. Ainda assim, em uma das vezes em que saiu do longo período no hospital e retornou para casa depois de mais um calvário, instalou-se em seu quarto e, pelo simples acesso a este pequeno conforto, exclamou:

– Ah, que vida boa. A gente reclama do que mesmo?



Jornal Zero Hora - 29 junho 2016
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segunda-feira, 27 de junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 26 06 16

Fator de descarte 2


Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”. Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender

Anos atrás, escrevi uma crônica chamada Fator de descarte, em que eu perguntava qual seria o deslize fatal que desmotivaria o prosseguimento de uma relação. Na época, dei o exemplo de uma amiga que estava no carro com o rolo novo e que o dispensou assim que ele, ao ouvir uma canção do Tom Jobim, disse que não suportava aquele xarope.

Amor não é coisa que tem dado sopa por aí, então, mesmo o cara tendo péssimo gosto musical, convém dar mais uma chance a ele – eu daria. Porém, nem todos são tão complacentes. Um amigo me disse, outro dia, que estava começando a trocar mensagens com uma garota, até que ela escreveu que adorava percorrer a orla de biscicleta. Biscicleta com sc foi o fator de descarte dele.

De fato, é grave, mas nestes tempos em que todo mundo tem iniciado relações através das redes sociais, sendo obrigado à escrita, é bom reduzir o grau de exigência, senão adeus cobertor de orelha para atravessar o inverno.

Erros clássicos proliferam: “despretencioso”, “encomodar”, “excessão”. Recentemente, uma escritora escreveu de forma errada a palavra exceção em seu Facebook: quem nunca? Na pressa em digitar um post contra a bandalheira do país, escapou um erro ortográfico sem revisão. Pelo mesmo motivo (a política), um músico escreveu que estávamos no fundo do posso. Ó, céus. Se até com eles, que dominam o português, acontece, imagine com quem não tem o hábito de ler livros, que é a maioria.

Muitos leitores me mandam e-mails bacanas e, ao final, pedem desculpas antecipadas por alguma eventual mancada na digitação. Quase sempre, são justamente eles que não cometem mancada alguma. Digo para relaxarem, pois costumo ficar mais ligada no conteúdo do que na forma. Eu mesma, em mensagens ligeiras, escorrego. E inclusive nas nem tão ligeiras: outro dia, numa crônica, troquei “sobre” por “sob” e não me conformo, como deixei passar? Vacilei. Não me descartem por isso, tenho defeitos piores.

Escrever corretamente é uma obrigação. Nada causa melhor impressão do que um texto limpo, claro e bem escrito, mas diante da falência da nossa educação e do lamentável índice de leitura do país, melhor ampliar nosso crédito amoroso para com os descuidados. Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”, assim, tudo junto. 

Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender. Se a pessoa aceita e agradece quando é carinhosamente corrigida, está salva, é sinal de que é inteligente. Mas se fica ofendida, aí o problema não é o erro gramatical, e sim a falta de humildade e a tacanhice em não querer melhorar. Pra essas, condescendência zero – agora sim, com sc.


Jornal Zero Hora - 26 junho 2016
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Who knows? Perhaps your love will make me forget all I wish not to remember. | Alexandre Dumus, The Count of Monte Cristo:


"Dona de uma fineza absoluta

na sala, Sartre 

na cama, Sutra.”



(Múcio Góes)
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