.

.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

domingo, 26 de julho de 2015

Martha Medeiros - #dasantigas

Casa de vó
(Martha Medeiros)

Eu faço todo o possível para respeitar a opinião e o gosto alheios. Ainda não cheguei à tolerância total, mas tenho feito progressos. Hoje consigo aceitar tranquilamente que alguém considere água tônica uma delícia ou que seja fã da banda Calypso. Cada um na sua. Mas preciso evoluir mais, muito mais, porque ainda fico perturbada quando alguém diz que foi passar a lua-de-mel na Disney. Tudo bem, é uma escolha, um direito, o que tenho a ver com isso? Ainda assim, não consigo evitar o espanto. Dois adultos apaixonados em lua-de-mel na Disney. Jantando com o Mickey!
Isso não significa que eu seja desprovida de espírito lúdico e de apreço à fantasia. Certa vez ouvi a Luana Piovani, num programa de TV, dizendo que a casa dos avós dela foi sua Disney. Bingo. A casa da minha avó também foi, Luana. Tinha uma espécie de morro nos fundos da casa, todo gramado, que dava para um outro nível do quintal. Bem no centro deste morro (deve ser um morrinho, mas a memória de uma criança não respeita proporções exatas) havia uma pequena escada de pedras, porém a gente subia sempre pela grama, claro. Éramos 13 primos fazendo trekking naquele latifúndio.
Lá em cima havia a churrasqueira e algumas árvores, mas o mais tentador era um quartinho misterioso, um depósito meio sem função, nosso QG infantil, que às vezes servia de casa de bonecas, em outras de redação de jornal — eu tinha o topete de escrever as aventuras da família. Se os fundos da casa eram mágicos, a casa propriamente dita era nossa Neverland. Tinha lareira, tinha adega, tinha sótão. Era como estar dentro de um cenário de filme, e havia também a Lucia, uma empregada alemã que parecia uma agente da Gestapo, nunca vi loura tão séria e retesada, mas preparava um cachorro-quente que jamais os Estados Unidos viram igual. Sério: a casa da avó da gente desbanca qualquer Epcot Center.
Hoje estas casas antigas foram derrubadas para dar lugar a prédios imensos, mas mesmo dentro de um apartamento é possível existir uma “casa de vó”, porque casa é só uma maneira de chamar, o que vale é o espírito do lugar, e havendo uma avó que entenda seu papel de proprietária não de um imóvel, mas de um segredo, está garantida a magia. Casa de vó é onde a lasanha e o pastelão ganham um sabor diferente, onde os ponteiros do relógio correm mais lentos, onde os ruídos são mais audíveis, onde o teto parece mais alto, onde a luz entra mais discreta entre as persianas, onde os armários escondem roupas antigas e fundos falsos, e só isso é falso, tudo mais é verdadeiro. Casa de vó é onde os brinquedos não surgem prontos, são inventados na hora. É onde a gente encontra os restos da infância dos nossos pais. E fotos de bisavós, de tios… epa, este sujeito aqui, quem é? Acalme-se, é o namorado novo da sua avó, você achou que ela ficaria viúva para sempre? Ela é sua avó, não um matusalém.
Se as avós não são mais as mesmas de antigamente, em suas casas ainda sobrevive um encanto que não muda. Será sempre um lugar secreto onde encontraremos um piano sem uso, alguns recortes de jornal, anéis coloridos, um bicho preguiçoso, uma máquina de escrever ou de costura, algo que seja estranho aos olhos de uma criança — e espaço, muito espaço para uma imaginação que não é estimulada nem na Disney, nem na rotina maluca de hoje, só mesmo lá dentro, no endereço do nosso afeto mais profundo, onde tudo é permitido.
.
.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Martha Medeiros #dasantigas

Antes de postar mais uma crônica #dasantigas, vou contar um causo rapidinho pra vocês.

Estava eu, limpando a minha caixa de e-mail com quase 16 mil mensagens, na sua grande maioria propagandas e newsletters de sites que eu acesso e quando abre aquela caixinha perguntando: gostaria de receber nossas novidades? E eu clico em sim (se arrependimento matasse...). Enfim, encontrei um e-mail de uma leitora do blog, datado de 12 de janeiro de 2015 que dizia bem assim:



Oi Lu, tudo bem ?!

Me chamo xxxxx e amo sua página , conheci através no meu namorado ele olha todos os dias pois gosta muito da Martha Medeiros e ama teu blog/pagina também... 
Dia 15 é aniversário dele gostaria que você publicasse o texto que fala sobre a teoria do biscoito da Martha , e que colocasse que estou super satisfeita com meu bono de chocolate que é ele, o nome dele é xxxxx e o meu xxxxxxxxxx.
Sei que é abuso demais, mas esse blog significa muito para gente.
Agradeço desde já.

Boa noite !
At.;

xxxxxxxxxx

Pensem no quanto fiquei chateada por não ter visto este e-mail antes? Eu respondi para ela, perguntando se ainda podia ajudá-la a fazer a homenagem para o seu "Bono de Chocolate", mas não obtive resposta (por isso apaguei o nome deles). Talvez, assim como eu, ela também não tenha lido o e-mail.

De qualquer forma, hoje vou postar essa crônica para eles (torcendo para que eles ainda estejam juntos). 

E se você L., passar por aqui, me desculpa, tá? E me escreve, pra dizer que viu.


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Teoria do Biscoito
(Martha Medeiros)



Uma vez minha vó me disse que homem é igual a biscoito: vem um,vêm 18.



Eu devia ter uns 15 anos e achei graça. Mas só hoje, 14 anos depois, do alto da minha solteirice, eu compreendi tudo sobre essa teoria. E vi que vovó tinha razão.

Funciona assim: quando a gente tá carente, sozinha, solteira, e sai ligando pra todos os paqueras, ex-namorados, rolos e afins, ninguémte quer, não é? Pois é. Essa é a primeira fase: tocos em profusão.

Na segunda fase, a gente resolve que não precisa de homem nenhum pra ficar bem, e aí aparece um só pra contradizer nossa certeza de auto-suficiência.Vem todo carinhoso, romântico, paparicante... A gente baixa a guarda, começa a sair com o cara, percebe que ele é interessante, resolve ver noque dá. Vai saindo, conhecendo, ficando...

E aí o que acontece? Entra na fase 3: a Teoria do Biscoito.

Chega um momento em que tu sente que a historinha tá evoluindo pra um possível compromisso, que está gostando daquele carinha, mesmo que ele não seja o príncipe encantado que sempre habitou seu imaginário de mulherzinha. Só que aí, neste exato momento, TODOS os outros que te dispensaram antes começam a te ligar.

Parece que eles farejam no ar, que combinam entre si. Acho que a gente deve exalar algum cheiro diferente que, interpretado pelo cérebro masculino, diz "eu encontrei alguém, não estou disponível". Imediatamente, você se torna o objeto de cobiça de todos eles. Talvez justamente por estar radiante, feliz e não-disponível. Aí rola aquela seqüência inacreditável de acontecimentos fantásticos.

Você tá na vernissage com seu novo pretendente e aquele gatinhoque você beijou a dois meses e nunca mais deu notícias começa a te ligar. Você vai pra boate sozinha (no dia que seu gatinho resolve ficar em casa descansando) e encontra aquele clone do Rodrigo Santoro, que namorava sua colega de serviço na década passada, e ele te olha, te acha linda e quer ficar com você.

E aquele outro, que era seu sonho de consumo como namorado perfeito, partidão, mas que sempre te esnobou, começa a te ligar quase diariamente: chama pro cinema, chama pro showzinho, liga para perguntar o que tu tá fazendo, pra te falar do disco novo que comprou, liga só pra ouvir a tua voz... Tem gente que acha isso o paraíso. Mas na boa, eu acho que só serve pra atrapalhar.

Porque, como mulherzinha do bem que sou, eu só quero essa penca de homens me ligando quando tô na guerra, que é pra poder escolher. Mas depois que eu resolvo sossegar com um, não quero que ninguém fique me ligando pra semear a discórdia e a dúvida na minha mente. Mas o babado é resistir às tentações.

De repente, com tantos homens fantásticos te ligando, tu começa a olhar pro seu pretendente atual e a achar que ele não é tão bonito quanto o fulano, nem tão alto e gostoso como o beltrano, nem carinhoso e bem-humorado como o cicrano. Você questiona se não está com ele por pura carência, porque ele apareceu num momento de falta de opções no mercado.

E essa é a grande cilada. Muitas não resistem. Dispensam o gatinho atual e tentam administrar todos os outros. Eu já fiz isso. Aí a Teoria do Biscoito entra na fase final: a de que quem come o pacote inteiro tem indigestão. Fica sem ninguém.

Todos somem e você fica sozinha, se perguntando como foi que deixou escapar aquele carinha tão legal com quem estava saindo, só por capricho. Eu não sei se funciona assim para todas as pessoas.

Mas eu decidi que agora vou dizer um sonoro "não, obrigada" para toda a fila de negrescos com super-cobertura, e ficar sim com aquele que não é negresco, mas é bono de chocolate. Que não é brastemp super-ultra-mega-estrelinha-plus, mas é consul-slim e se encaixa direitinho na minha casa. Que não é o príncipe encantado, lindo,maravilhoso, perfeito, em cima do cavalo branco, mas que é um cara real,
de carne e osso, que está do meu lado e quer ficar comigo.

Quem me diverte e me agrada, e gosta das mesmas músicas que eu, e gosta de dançar música trash dos anos 80, que me apresenta pros amigos sem nenhuma cerimônia, que fica bolando pequenas surpresas pra me fazer e que é, sim, muito lindinho à sua maneira. 
Simples assim. Se não der certo, não deu.

Faz parte da vida. Mas eu não preciso comer o pacote inteiro de negresco pra saber que um bono de chocolate me satisfaz.

.
.


domingo, 19 de julho de 2015

Martha Medeiros - #dasantigas

O amor que a vida traz

(Martha Medeiros)


Você gostaria de ter um amor que fosse estável, divertido e fácil. O objeto desse amor nem precisaria ser muito bonito, nem rico. Uma pessoa bacana, que te adorasse e fosse parceira já estaria mais do que bom. Você quer um amor assim. É pedir muito? Ora, você está sendo até modesto.
O problema é que todos imaginam um amor a seu modo, um amor cheio de pré-requisitos. Ao analisar o currículo do candidato, alguns itens de fábrica não podem faltar. O seu amor tem que gostar um pouco de cinema, nem que seja pra assistir em casa, no DVD. E seria bom que gostasse dos seus amigos. E precisa ter um emprego seguro. Bom humor, sim, bom humor não pode faltar. Não é querer demais, é? Ninguém está pedindo um piloto de Fórmula 1 ou uma capa da Playboy. Basta um amor desses fabricados em série, não pode ser tão impossível.
Aí a vida bate à sua porta e entrega um amor que não tem nada a ver com o que você queria. Será que se enganou de endereço? Não. Está tudo certinho, confira o protocolo. Esse é o amor que lhe cabe. É seu. Se não gostar, pode colocar no lixo, pode passar adiante, faça o que quiser. A entrega está feita, assine aqui, adeus.
E agora está você aí, com esse amor que não estava nos planos. Um amor que não é a sua cara, que não lembra em nada o amor solicitado. E, por isso mesmo, um amor que deixa você em pânico e em êxtase. Tudo diferente do que você um dia supôs, um amor que te perturba e te exige, que não aceita as regras que você estipulou. Um amor que a cada manhã faz você pensar que de hoje não passa, mas a noite chega e esse amor perdura, um amor movido por discussões que você não esperava enfrentar e por beijos para os quais nem imaginava ter tanto fôlego.
Um amor errado como aqueles que dizem que devemos aproveitar enquanto não encontramos o certo, e o certo era aquele outro que você havia encomendado, mas a vida, que é péssima em atender pedidos, lhe trouxe esse e conforme-se, saboreie esse presente, esse suspense, esse nonsense, esse amor que você desconfia que nem lhe pertence. Aquele amor em formato de coração, amor com licor, amor de caixinha, não apareceu. Olhe pra você vivendo esse amor a granel, esse amor escarcéu, não era bem isso que você desejava, mas é o amor que lhe foi destinado, o amor que começou por telefone, o amor que começou pela internet, que esbarrou em você no elevador, o amor que era pra não vingar e virou compromisso, olha você tendo que explicar o que não se explica, você nunca havia se dado conta de que amor não se pede, não se especifica, não se experimenta em loja – ah, este me serviu direitinho!
Aquele amor discretinho por você tão sonhado vai parar na porta de alguém para o qual um amor discretinho costuma ser desprezado, repare em como a vida é astuciosa. Assim são as entregas de amor, todas como se viessem num caminhão da sorte, uma promoção de domingo, um prêmio buzinando lá fora, mesmo você nunca tendo apostado. Aquele amor que você encomendou não veio, parabéns!
Aproveite o que lhe foi entregue por sorteio.
Martha Medeiros
.
.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

AINDA DÁ TEMPO PRA TUDO 

(Martha Medeiros)


O que dizer de Sete Vidas, que acabou de terminar e já deixa saudades? Lícia Manzo, essa autora espetacular que deveria escrever três novelas por ano, em vez de uma a cada três anos, nos ofertou um texto impecável do começo ao fim, mas vou me restringir a uma única frase, uma frase banal que ela colocou na boca de um personagem no capítulo de ontem: “ainda dá tempo pra tudo, basta a gente querer”. Se eu dissesse que foi Aristóteles, Nietzche, Sêneca que disse isso, você acreditaria? Acreditaria. Mas foi Lícia Manzo, em seu ofício mundano.


Ainda dá tempo pra tudo. 


Pode o céu estar fechado neste instante, mas uma hora abre, não falha. Pouco importa sua idade: você está vivo. Então ainda dá tempo para você reatar, dá tempo para você terminar uma relação ruim e começar outra, dá tempo de pedir perdão ou de colocar uma pedra sobre o assunto que incomoda, dá tempo de ter um relacionamento mais leve e prazeroso, e indo além das questões amorosas: dá tempo de conhecer a Ásia, de escrever suas memórias, de mergulhar no mar à noite, de aprender a cozinhar, de falar italiano, de fazer diferença, de começar uma coleção. Se me permite uma sugestão: colecione inúmeras ”primeiras vezes”. Todas as primeiras vezes que você tem evitado porque não simpatiza com mudanças.


Aqui entra a segunda parte da frase: basta a gente querer.


É a parte mais difícil: querer. Porque querer dá trabalho. Querer convoca à ação. Te arranca debaixo das cobertas. Querer pressupõe suor, planejamento, esforço, risco. O querer te cobra, te aponta o dedo, e aí, criatura? Quis tanto e não batalhou? Querer te chama para o combate. E lá vai você.


Queira. Não se contente com o que já tem. Ou com o que nunca teve. Queira mais, queira melhor, queira o impossível, queira sem garantia de ser bem sucedido, simplesmente queira tanto, mas tanto, a ponto de emitir sinais – alguém há de captá-los.



Recado para os cansados: ainda dá tempo. Para os desiludidos: ainda dá tempo. Para os frustrados: ainda dá tempo. Para os desistentes: tente um pouco mais. Você respira? Então ainda dá.



(Da página oficial da autora, em 10 de julho de 2015)
.
.

quinta-feira, 16 de julho de 2015


Picture telling something about sixties : vinyl, records, mini-jupe (mini skirt), hairstyle ...

"E é assim que hoje, ouvindo samba, decidi começar a caminhar de novo, 
mesmo com os pés doendo: com a certeza de que em pouco tempo vou
 encontrar um lugar pra me sentar, tirar os sapatos e apreciar a estrada. 
Para depois dar mais alguns passos descalça e, com novos calos a 
proteger os pés, descobrir caminhos que nem estavam no mapa, e 
voltar ao prazer da viagem.



Lá na frente, quem sabe eu mesma faça um sambinha, 
cantando em humor as vezes que errei o caminho – 
e de como foi bom aprender."



(Cris Guerra)


Suspiros infinitos com essa música.






quarta-feira, 15 de julho de 2015

Martha Medeiros #dasantigas

Mulheres e meninos


É preciso reconhecer uma verdade universal: mulher é chata. É gostosa, é querida, é sensível, é eficiente, mas é chata. Me incluo. Só que a tendência é perdermos a chatice com o passar dos anos."

Não é novidade que há muitas mulheres, hoje, relacionando-se com homens mais jovens. Há quem acredite que esta é mais uma infiltração da mulher no mundo masculino: elas estariam dando o troco nos coroas que só se relacionam com ninfetas. Pois eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Homens maduros se relacionam com garotas, na maioria das vezes, para confirmar sua virilidade e também para recuperar a juventude, e, sejamos francos, ninguém tem nada a ver com isso, todas as relações humanas são, basicamente, de troca: cada um oferece o que tem e toma pra si o que precisa. Se é amor, tanto melhor, mas mesmo não sendo, o casal pode ser igualmente feliz.

Já as mulheres não me parecem estar se relacionando com garotos apenas para se sentirem mais jovens - ainda que isso conte também. O que eu tenho observado é que, na verdade, nem são as mulheres que estão partindo pra cima dos guris. É sempre mais fácil acreditar no clichê: mulheres divorciadas, recauchutadas e com dinheiro no bolso estariam aliciando rapazotes indefesos, mas olhe com atenção: eles, os "indefesos", é que estão procurando mulheres mais maduras. Ou será otimismo meu?

O motivo não é difícil de entender. Me acompanhe. Pra começo de conversa, é preciso reconhecer uma verdade universal: mulher é chata. É gostosa, é querida, é sensível, é eficiente, mas é chata. Me incluo. Só que a tendência é perdermos a chatice com o passar dos anos. A passagem do tempo, se nos tira algum viço - e nem tira tanto assim, com os recursos que existem hoje, nos dá em troca muita coisa: serenidade, autoconfiança, experiência. E o mais importante de tudo: humor! Depois de passarmos pelas inseguranças da adolescência e pelos sustos e pelas obrigações do primeiro filho, do segundo filho, do primeiro casamento, do segundo casamento, a gente simplesmente relaxa. Acabou o estresse familiar, viraram todos amigos, é hora de se divertir. Não há mais tempo a perder com picuinhas, com ciúmes, com desconfianças, com sonhos inatingíveis. Uma mulher madura troca sonhos por objetivos. Não precisa mais matar dez leões por dia, já se estabeleceu e agora quer aproveitar a vida, curtir bons shows, viajar, ficar bonita e fazer umas loucuras que nunca se atreveu quando era mais jovem, veja só.

Qual é o homem que não vai querer uma mulher assim?

Tem muita menina bacana e madura, não dá pra generalizar. Mas é bem verdade que muitas delas são bobas, cheias de frescura, só ligam para a aparência e se esquecem do recheio. Fazem um dramalhão por qualquer coisa e viram experts em desgastar relacionamentos. Então os rapazes não têm outra saída a não ser procurar mulheres mais desencanadas. Não lhe parece uma teoria plausível? Trocam-se duas esquizofrênicas de 20 por uma quarentona que só dê prazer, e não problemas.

Ok, talvez eu tenha sido otimista demais. Coisa da idade.




(Martha Medeiros)
.
.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Ci sono rivoluzioni fatte da un sorriso, un abbraccio,

"O tempo faz a gente desaprender a outra pessoa.
passamos a não saber como é rir ao seu lado, chorar ou dividir
o fone de ouvido enquanto a viagem segue seus kms de silêncio.

Desaprender a outra pessoa é diferente de esquecer.

Esquecer é tirar qualquer pista, perfume, lembrança. É apagar.

Desaprender não. Desaprender é atrofiar a convivência,
destreinar o carinho, desconhecer o caminho.

Desaprender a outra pessoa é não saber responder "como ela está?",
"o que ela mais gosta de comer?", "qual é o maior medo dela?".

Esquecer é sumir dentro de si. Desaprender é perder-se dentro de si.

Desaprender é não saber a resposta. Esquecer é não saber a pergunta.

Quem esquece, não sente nada quando encontra a pessoa ao acaso.

Quem desaprende, sente.

Só não sabe bem o que."



(Bruno Pereira)




sábado, 11 de julho de 2015

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/07/15

Inquietude pré-embarque

A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei?

Julho, mês de férias. Momento de se preparar para a melhor coisa do mundo: viajar.

Na verdade, as três melhores coisas do mundo são comer, dormir e transar (coloquei em ordem alfabética, não em ordem de preferência), mas é viajando que desfrutamos para valer desses três grandes prazeres da vida. Não há rotina, não há horários, ninguém está nos apressando. O que pode ser mais excitante?

Pois estava, dias desses, conversando com quatro mulheres que vivem em trânsito pelo mundo. Ainda que sejam contumazes viajantes, elas admitiram que, a cada vez que compram uma passagem, sentem um temor incômodo que não sabem de onde vem. Estranho, tendo elas tantas milhagens acumuladas, mas não me surpreendeu. Também fico meio aflita antes de embarcar para um destino longe demais do meu quintal. Por um motivo tosco, infantil: fico achando que vou morrer.

Uma amiga que mora no Rio tem esta mesma sensação. Já somos seis (as quatro mulheres da primeira conversa, minha amiga carioca e eu). Você também? Então está na hora de a gente formar um grupo de apoio e tentar entender o que acontece.

Não é um medo racional, um medo de que o avião caia, por exemplo. As chances de ele cair são mínimas. Neste exato instante há várias centenas de aviões cruzando os céus do planeta e nenhum deles estará na matéria de abertura do Fantástico neste domingo (uma madeira, pelo amor de Deus! – toc, toc, toc).

Trata-se de um desassossego, mais do que um medo. Viajar é abrir um parêntese na vida, escapar de um esquema já organizado, se predispor ao desconhecido – e se despedir de quem fica. A cada vez que estou fechando a porta de casa para ir ao aeroporto, dou uma espiada mais demorada para a sala e penso: será que voltarei? Nem preciso dizer o que sinto ao dar um beijo nos familiares e trocar mensagens com os amigos: por um fiapo de segundo me passa pela cabeça que é a última vez que estou falando com eles. Qual a razão dessa neura descabida, se algo tão maravilhoso está para acontecer?

Deve ser justamente isso. Dá a impressão de que não merecemos este algo tão maravilhoso, de que teremos que pagar por este extremo deleite, não em cash, mas em sofrimento.

Culpa, em outras palavras.

Já soube de gente que, ao chegar ao aeroporto, mudou de planos: deu meia-volta e retornou para casa. Ufa, me sinto menos louca diante desses casos perdidos. Eu embarco com inquietação e tudo, e assim que o avião aterrissa do outro lado, estou uma tonelada mais leve e completamente esquecida do que até então me perturbava. A inquietação se autoextravia.

Aliás, embarco hoje e volto para a coluna daqui a duas semanas. Sem despedidas, por favor.



Jornal Zero Hora - 12 julho 2015
.
.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...