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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Tu,





"Tu, que tem esse abraço casa
Se decidir bater asa
Me leva contigo pra passear
Eu juro afeto e paz não vão te faltar"

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 24 agosto 2016

Em slow


Ao assistir a uma das provas de salto sincronizado na Olimpíada (eu sei que o assunto é antigo, não vou me demorar nele, um pouquinho de paciência), o que mais me impressionou não foi a destreza das atletas, e sim a precisão da comentarista. As meninas pulavam do trampolim e em dois segundos entravam na piscina, e então a comentarista, muito antes do replay, dizia exatamente qual delas tinha tocado primeiro com a mão na água, se a perna direita estava esticada e se a esquerda estava levemente flexionada, como se o salto não tivesse ocorrido durante uma piscadela. 

Quando vinha o replay em slow, bingo: tudo o que a comentarista havia percebido a olho nu estava ali, confirmado. O mesmo se dava com os comentários da Daiane dos Santos sobre as piruetas da Simone Biles. Como é que a Daiane conseguia contar quantos mortais haviam sido dados pela americana supersônica antes do replay?

Queria ter esse preparo. Estou mais para faísca atrasada. Meu dinamismo não consegue mais acompanhar o looping vertiginoso da vida.

Um dos meus hobbies favoritos tem sido descobrir coisas que, mesmo em sua velocidade normal, parecem estar em slow (eu sei que não é um hobby, o nome disso talvez seja escapismo, mas tenha paciência comigo um pouquinho mais). Um exemplo? Um camelo caminhando pelas dunas do deserto. Um camelo, em velocidade normal, caminha mais devagar do que o Usain Bolt em câmera lenta. A girafa, a mesma coisa. Ela esbanja elegância em sua falta de pressa – e mesmo que estivesse apressada andaria com a mesma languidez.

Tenho exemplos melhores, calma. O avião.

Pensa. O avião, o meio de transporte mais rápido que conhecemos, decola como se fosse uma bolha de sabão e aterrissa suavemente, como uma folha caindo de uma árvore – bolhas e folhas jamais atingirão o efeito fast forward. E não bastasse a sofisticação da decolagem e da aterrissagem, o avião cruza os céus lá em cima como se estivesse a 20 km/h, enquanto um periquito passa pelos nossos olhos a jato.

A onda no mar. Talvez o exemplo mais hipnótico. Toda onda se forma com preguiça e quebra como se fosse um movimento de tai chi chuan. O oceano pode estar revolto, uma tempestade se formando, e mesmo assim a ondulação das águas se parece com as mãos de um maestro regendo um compasso tranquilo.

Por que perco tempo com isso? Justamente para tentar segurar o tempo, esse senhor afobado. Quanto mais ele se precipita e dispara, mais eu ajusto o foco e reconheço a nobreza do vagar. Do fluir. Do flanar.

Um beijo, um sentimento ou mesmo uma reflexão. Tanta coisa que eu não queria que passasse ligeiro – mas passou. Obrigada pela paciência.


Jornal Zero Hora - 24 agosto 2016
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domingo, 21 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 21/08/16

Vida dura comparada com a de quem?


Há mil jeitos de aliviar a dor dos outros. Ficamos com a parte mais fácil, tenha certeza

Vamos supor que a mesa da sua cozinha tenha sido atacada por cupins, que você esteja de relações cortadas com sua mãe, que venha sofrendo uma dor-de-cotovelo daquelas, que tenha engordado durante o inverno, que esteja estremecida com uma amiga com posição política oposta à sua, que tenham batido no seu carro estacionado e não deixaram nem um bilhete no para-brisa. Continue supondo: fez as contas e não vai dar para viajar no fim do ano, seu filho admitiu que fuma maconha, e seu patrão encasquetou que você está fazendo corpo mole no trabalho, mas a única coisa mole é seu tríceps.

Sem falar que anda frio, que sair à noite anda perigoso e você andou se estressando com comentários deixados nas redes sociais. O peixe que comeu no almoço estava estragado, e sua prima perdeu o livro que você emprestou. Convidaram você para um casamento, e você não tem roupa. Um maluco caçando pokémons pisou em cima do seu yorkshire. Será porque é agosto?

Pode nada disso estar acontecendo com você, mas certamente você tem sua lista de queixas. Todos nós temos. Mas queixas comparadas com o quê?

Passei uma tarde na Kinder, uma entidade que reposiciona nossos valores. Há mais de 25 anos, oferece educação especial e reabilitação a 300 crianças e adolescentes carentes com sérios comprometimentos neurológicos e físicos. Emprega cerca de 50 profissionais, entre pedagogos, fisioterapeutas, educadores. Mantém uma sede ampla, limpa e bem equipada – tudo mantido com doações privadas e repasses públicos. 

O que acontece lá dentro é um milagre. Cada funcionário trabalha com um baita sorriso no rosto, como se estivesse na Disney. Atendem meninos e meninas com deficiências de moderadas a graves (não há caso leve por lá) e se sentem orgulhosos e plenamente gratificados por fazer diferença na vida de quem nasceu em total desvantagem em relação a nós. Desvantagens como não conseguir falar, não conseguir ficar em pé sozinho, não ter articulação motora.

Quem começou tudo isso foi, de certa forma, uma refugiada. Barbara Fischinger chegou novinha aqui no sul, vinda da Alemanha, e não poupou esforços até realizar seu sonho de viabilizar um projeto de assistência aos que têm comprometimentos múltiplos. O que ela fez e ainda faz é de uma importância que até nos deixa acanhados, nós que nos julgamos especiais sei lá por quê. 

Especiais são aqueles que se dedicam a projetos de inclusão social e o fazem com amor e entrega ilimitada. A nós, resta colaborar. Podendo, entre no site kinder.org.br. Há mil jeitos de aliviar a dor dos outros. Vamos dar uma mão para que esse pessoal prossiga com o que começou. Ficamos com a parte mais fácil, tenha certeza.



Jornal Zero Hora - 21 agosto 2016
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Imagem de relax and black and white

"Saudade é coisa 
que dá e passa
passa o tempo todo
dentro da gente"



(Múcio Góes)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 17/08/16

Fortal

Eu estava dentro do avião e na fila de trás havia um cara que estava sendo muito bem tratado pela tripulação. Ligeiramente mais bem tratado do que os outros passageiros. O pessoal sentado no fundo da aeronave ia ao banheiro e, ao retornar pelo corredor, passava por ele, dava um tapinha leve em seu ombro e fazia joinha com a mão. Fiquei encasquetada. Olhei bem dentro dos olhos dele. Nem ideia. Devia ser algum jogador de futebol.

Quando atravessei o portão de desembarque, o motorista que segurava uma plaquinha com meu nome estava visivelmente contrariado por não estar aguardando o passageiro VIP que desembarcava junto comigo. Não resisti. Depois de me apresentar, indaguei a ele: quem é afinal aquele moço? O motorista me olhou como se eu estivesse chegando de Marte. Ué. O Durval.

Durval? Durval, Durval... Não estou associando o nome à pessoa.

O Durval Lélys!! Claro, o Durval Lélys. Coloquei minha mão na testa como quem pede desculpas por ser tão matusquela, mas o fato é que continuava sem a menor ideia de quem fosse, e devo ter dado bandeira da minha ignorância, pois o motorista resolveu dar uma ajudinha. É o Durval Lélys, do Asa de Águia. Aaaaaahh, tá. Obrigada. Agora está esclarecido.

Estávamos já dentro do carro quando o motorista, simpático, fez algum comentário sobre a alta temperatura daquela tarde e logo deu prosseguimento ao assunto. O Durval veio para o Fortal. Ai, meu santo padroeiro, aquilo não ia acabar nunca. O Fortal, sei, sei.

O Fortal está fazendo 25 anos! 25!!! Dá pra acreditar? – disse ele tão entusiasmado que quase deu uma palmada na minha coxa esquerda, a mais próxima dele.

Já desembarquei em Abu Dhabi, Bangcoc, Tóquio e nunca senti desamparo semelhante. O senhor vai me desculpar, venho de muito longe, de um lugar chamado Porto Alegre, o senhor poderia ser mais específico? Fortal é o quê? Ele deu uma risadinha orgulhosa. É o nosso festival de música. Ok, eu não era obrigada a saber. Entendi. Um festival de música patrocinado, provavelmente, por esse medicamento, o Fortal. Devia ser algum energético, uma vitamina. Fortal em drágeas, Fortal em gotas, sei lá eu.

Cheguei, finalmente, ao hotel. Entrei no quarto. Larguei minha mala. Fui até a janela e abri as cortinas. Vi aquele mar espetacular à minha frente. Suspirei. Eu estava em Fortaleza.

Em Fortal.

Que estúpida. Óbvio! As pessoas trabalham em Sampa. Passam férias em Floripa. A mulher do Carpinejar é de Beagá. E nós vivemos em Poa. Cidades têm apelidos. Na hora, não me dei conta. Por que deveria? Só porque havia acabado de chegar ao Ceará? Tá bom, me humilhe. Diga agora que sabe de cor todas as músicas do Asa de Águia e que reconheceria o Durval a quilômetros de distância.


Jornal Zero Hora - 17 agosto 2016
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terça-feira, 16 de agosto de 2016


Imagem de couple, love, and black and white

"Eu te abraço para abraçar o que me falta."


(Rubem Alves)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 14/08/16

A arte salva


A arte formula perguntas, nos devolve o mistério, nos coloca diante do desconhecimento, que é a única forma de crescer

A já remota cerimônia de abertura da Olimpíada no Rio deixou claro que música, dança e teatro não são supérfluos, que precisamos de um Ministério da Cultura forte e valorizado, e que arte também é uma religião.

A arte possibilita a comunicação instantânea entre povos que não falam a mesma língua e não possuem os mesmos costumes. A arte acessa em cada um de nós uma emoção que suplanta as mesquinharias triviais e cotidianas. Traz à tona valores fundamentais, a começar pela humildade. A arte nos reposiciona: saímos do lugar-comum, transcendemos e passamos a desenvolver um olhar mais amplo e generoso para o que nos cerca. A arte homenageia nossa inteligência e nossa sensibilidade. A arte é universal. É feita de mágica, beleza, espanto. Cala a nossa voz e desperta nossos sentimentos, sem os quais seríamos pessoas vazias, robotizadas.

Através da arte, nos aproximamos de outras vivências e combatemos nossos preconceitos. A arte é empática. Elimina fronteiras. Desconstrói rótulos. Mesmo quando comercial, traz sempre um valor intrínseco. A arte não tem que atender nossas demandas, não tem que ser “boazinha”, não tem que ser prática – ela existe para provocar, para desenterrar aquilo que escondemos de nós mesmos por covardia: emoção dói, por isso choramos. Ela recupera a inocência da infância, aquele tempo de descobertas, quando nada sabíamos. A arte formula perguntas, nos devolve o mistério, nos coloca diante do desconhecimento, que é a única forma de crescer. A arte impõe a subjetividade como caminho para a evolução.

Precisamos da arte para extrair de nós o nosso melhor. Portanto, que nossas escolas invistam em aulas de teatro e música, que mantenham oficinas de literatura, que coloquem o artesanato no currículo, que não apenas levem os estudantes a museus, mas que também os habilitem a manejar luz, som, matéria. Sem desprezar o mundo digital, que as crianças voltem a fazer trabalhos manuais, encontrando uma forma legítima, autêntica e excitante de criar algo que as personalize.

Não é preciso Deus quando se pode contar com maestros, bailarinos, compositores, instrumentistas, cineastas, escritores, pintores, dramaturgos, ceramistas, escultores, designers, atores, cantores, coreógrafos, malabaristas – e inclusive atletas. Nadia Comaneci foi uma artista. Garrincha foi um artista. Toda pessoa que consegue transformar o inesperado em poesia – através de um salto, um drible – reforça nossa autoestima e nossa fé. Se religião é crer, eu creio na arte. Ela não promove guerras, intolerância, terrorismo, repressões. Ela apenas retribui nossa crença nela, fazendo com que acreditemos em nós também.



Jornal Zero Hora - 14 agosto 2016
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 10/08/16

O que eu caço por aí


Estava distraída andando pelo parque num dia de sol quando escutei, sem querer, a conversa de duas moças que caminhavam logo atrás de mim.

Disse uma para a outra: “Ele aparece muito depressa, não dá tempo de pegar”.

Imaginei que ela estivesse narrando as desventuras da noite anterior. Visualizei a cena: ela tomava uma caipirinha em uma mesa de bar quando entrou no recinto o homem de seus sonhos, que deu uma rápida conferida no ambiente e logo sumiu porta afora, como era de costume. O comentário dela não fazia todo o sentido? “Ele aparece muito depressa, não dá tempo de pegar”.

Se não era esse o caso, talvez fôssemos colegas de profissão e o comentário faria sentido igual, uma vez que, além de eu estar no parque me exercitando, estava também fazendo algo que minha atividade exige: caçando. Calma. Caçando assunto. Às vezes, eles também surgem muito depressa, nem dá tempo de pegar.

Parece insano reclamar de falta de assunto, já que não se pode alegar que o mundo esteja um tédio. Absolutamente tudo está acontecendo neste ano, a ponto de uma boa piada ter se propagado por aí: “Tentei acompanhar 2016, mas desisto, vou esperar sair em DVD”.

Ainda assim, quem escreve colunas há mais de duas décadas vive com a sensação de ter esgotado seu estoque de opiniões. Olimpíada, corrupção, desastres ambientais, mortes, crises, eleições, retrocessos, avanços, dores existenciais, ativismo político e social: mudam os personagens, os enredos são reescritos, a filosofia clássica é reinterpretada, mas o que é que ainda surpreende de fato? Lembro que até há pouco tempo eu pensava que o último acontecimento realmente impactante deste início de século havia sido o 11 de Setembro, porém até o terrorismo está em vias de se banalizar.

O jeito é extrair uma impressão pessoal não só das grandes questões, mas também das trivialidades que todos estão comentando (e agora todos são todos mesmo), com bom humor ou mau humor, sem se angustiar por não conseguir ser original em meio a bilhões de palpiteiros simultâneos desse universo tecnológico.

Costumo fazer minhas caminhadas sem levar o celular, mas aquelas duas moças atrás de mim estavam com seus smarthphones caçando você-sabe-o-quê, só que quem se deu bem fui eu, pois ele passou depressa e eu consegui pegar – um assunto! Graças ao comentário delas, trouxe pra casa minha caça: a crônica foi escrita, entregue para o jornal e agora está sendo lida. De certa forma, meu Pokémon é você.



Jornal Zero Hora - 10 agosto 2016
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When the pages of my life end, I know that you will be one of its most beautiful chapters.:

"Tem palavras
que chegam
como um abraço.

E tem abraço
que não precisa
de palavras."


(Poeta Sérgio Vaz)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 07/08/16

ATLETAS


Meu lugar não é no pódio, e sim na arquibancada, na plateia, na frente da tevê

Em passo acelerado, cruzo com outro caminhante, ambos orgulhosos do nosso feito: num sábado de manhã gelado, não estamos embaixo das cobertas, e sim na rua, colocando as pernas em movimento, o corpo em marcha, isso em plena meia-idade. Ninguém diz. De legging, tênis, rabo de cavalo, fone de ouvido, ninguém diz nada. Esforçados não merecem críticas, apenas incentivo, ou no mínimo um silêncio cúmplice.

Nunca fui uma atleta. Joguei caçador quando criança, andei muito de bicicleta, mas não era uma esportista. Depois me atrevi ao vôlei, mas só um pouquinho. Tentei o tênis uma tarde e meia, não rolou. Frequentei academias de jazz por anos, mas dança é arte, não esporte. O frescobol vingou e vinga até hoje, mas não existe gaúcha no ranking. Fiz meia dúzia de aulas de beach tênis, mas parei quando esfriou. Trilha, só em viagens de aventura, não são cotidianas. No final das contas, me restou a literatura, a mais sedentária das atividades.

Faço pilates há quatro anos e mereceria ao menos um bronze pelas acrobacias que minha instrutora exige, mas o Esporte espetacular me esnoba, nunca irá me filmar, e também ninguém jamais me flagrou conduzindo um caiaque numa praia da Tailândia ou escalando um morro em Machu Picchu. Férias não contam. Melhor esquecer. Não produzo suor suficiente.

Meu lugar não é no pódio, e sim na arquibancada, na plateia, na frente da tevê.

Eu poderia (e provavelmente deveria) ser mais uma a dizer que é um absurdo o que gastaram nessa Olimpíada do Rio, que é um vexame a infraestrutura ser tão meia-boca, mas à medida que o evento acontece, meu espírito crítico vai minguando, contraindo e dando espaço para o coração expandir (palavrinha trazida na bagagem de todas as comitivas: coração).

A verdade é que acho bacana tudo isso.

Vários jovens de diversas nações unidos pela farra, mas competindo por um frame de segundo que pode virar um recorde. Braços musculosos, abdômens inexistentes, bíceps, tríceps e sorrisos confiantes. Gente que se alimenta direito, que acorda cedo, que treina, que vive no ginásio, que quase não namora, ou namora escondido, gente que não chega nem perto de droga, gente que rema, dribla, salta, pontua, supera. De quatro em quatro anos, novos deuses do esporte cantam seus hinos pátrios, carregam medalhas no peito e voltam pra casa com a missão cumprida.

Dessa vez acontece no quintal da gente, nessa casa esculhambada que conhecemos como ninguém, mas mesmo que alguma coisa ou muitas coisas deem errado, só nos resta aplaudir – e no outro dia acordar cedo para caminhar, modestamente caminhar: se não a sua, minha única forma de compartilhar.


Jornal Zero Hora - 07 agosto 2016
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"Não quero pressa
Menos ainda promessa
Nada que apressa promete ficar."



(De todas as Coisas - Tiago Iorc)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 03/08/16


A arte do encontro



Exatamente uma semana atrás, assisti à estreia do programa de entrevistas A arte do encontro, do Canal Brasil (quartas, 21h30min), apresentado por um Tony Ramos também estreante na função. O primeiro convidado foi Antonio Fagundes, seu colega de dramaturgia. Antes mesmo que eles começassem a conversa, um de frente para o outro, apenas com uma estreita mesa separando-os, eu já estava cativada: eram dois homens que ali estavam. Não dois rapazotes, não dois deslumbrados. Eram dois homens vividos, seguros, confortáveis dentro do próprio corpo, dois amantes da poesia, da literatura, da arte, da vida. Dois homens calmos, dois homens sem afetação, dois homens sem necessidade de fazer marketing pessoal, sem disputarem nada entre si.

O povo anda com o parafuso solto, como se sabe. Ou se debocha de tudo, presunçosamente, ou parte-se para a agressão. Muita gente disposta a ferir, ofender, humilhar. Os papos, quase sempre, são rasos. A polarização política continua: se você não grita “Fora, Temer”, seus amigos de esquerda te chamam de golpista, e, se não grita “Fora, Dilma”, seus amigos de direita te chamam de comunista. E estamos resumidos. Então surgem dois homens tranquilos na tevê, numa noite no meio da semana, na hora do jantar, declamando poemas de Fernando Pessoa e fazendo uma leitura de Hamlet, assim, por nada, só pelo prazer de invocar palavras que emocionam.

Os dias correm ligeiros. Dezenas de mensagens entram pelo WhatsApp e nos sentimos isolados quando o aplicativo é bloqueado pela Justiça, sem lembrar que podemos telefonar como fazíamos dois anos atrás. Tudo passa rápido, há quem já me pergunte para onde irei no réveillon e ainda nem digeri o almoço. Quase nada permanece, o tempo voa, e então, finalmente, relaxo diante de dois homens sem pressa, que me ajudam a perceber como são sólidas as palavras ditas sem afobação.

Dois homens provocaram esse efeito em mim. Não foram duas mulheres empoderadas, foram dois homens. Num tempo em que os homens parecem ter se transformado em inimigos da sociedade, admito que me senti acolhida por aquelas vozes maduras, por uma virilidade nem um pouco ameaçadora, por um entrevistador que escuta e permite que o entrevistado fale, como deveria acontecer em nossas conversas privadas, duas pessoas que se olham sem aguardarem ansiosas a hora de dar o bote. Eram dois homens adultos que, sei lá por que – talvez porque estejamos na véspera de assistir a uma perseguição por vitórias – me fizeram lembrar que respeitar e admirar o outro não nos diminui em nada.

Não competir também é muito bom.



Jornal Zero Hora - 03 agosto 2016
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