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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

#DentrodeUmAbraço

Vídeo Oficial:








Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22/10/14

Sem arrego

“Resmungos e ranger de dentes não vão ajudar, as coisas mudaram e precisam ser assimiladas o quanto antes, porque vieram para ficar. Resistir ao que de todo modo vai acontecer seria falta de sabedoria e perda de tempo.”

Me senti uma garotinha de cinco anos ao ler esse puxão de orelhas que havia sido direcionado a mim. Em três linhas eu havia sido chamada de birrenta e burra. Tranquei o choro.

Mas logo me dei conta de que eu não tinha mais cinco anos e que não deveria levar a reprimenda tão a sério, afinal, foi direcionada a mim, mas também a outros tantos, e por alguém que nem me conhece direito. Resolvi achar graça e tocar minha vida sem me perturbar com questões menores.

Mas ele não se abalou com meu pouco-caso e seguiu com a artilharia pesada.

“Tenha cuidado com esse cansaço que pesa sobre a alma, pois é ele que induz a acreditar na ilusão de que os problemas poderiam ser resolvidos de uma tacada só, com fórmulas mágicas. Isso não acontecerá de jeito nenhum.”

Rogando praga. Insolente. Quem disse que estou com cansaço na alma, quem?

Resolvi ler o que ele dizia sobre os outros signos. Realmente, ele não era um representante da geração paz & amor, mas pegava mais leve com Áries, Gêmeos, Libra. Comigo é que a rudeza imperava. Perseguição nítida.

A solução era simples: deixar de dar ibope para as suas ralhações astrológicas. Ignorar. Estava decidida a fazer isso a partir do dia seguinte. Porém, o novo dia amanheceu, como sempre amanhece, e eu me vi espichando o olho para aquele quadradinho minúsculo com três pequenas linhas onde cabia toda a ira do universo contra mim. Foi então que compreendi como funciona a cabeça dos leitores que odeiam certos colunistas do fundo do coração. Xingam, rosnam, ofendem, mas não os abandonam nem sob decreto.

“Nada que for feito intempestivamente ajudará a resolver coisa alguma. Certamente, não será fácil conter os impulsos, mas, se você não se empenhar nesse sentido, sua alma não merecerá ser chamada de humana. Contenha-se!”

Nunca homem algum ousou mandar eu me conter, o abusado foi o primeiro – e ainda usou ponto de exclamação!




Jornal Zero Hora - 22 outubro 2014
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

domingo, 19 de outubro de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 19/10/14

A fantasia de jogar tudo para o alto

“Me chame de louca e me ganhe para sempre.” Tá, não é bem assim, mas parecido. Quanto mais cresce e se estabiliza a campanha pelo politicamente correto, mais as pessoas gostam de serem chamadas de loucas. Mulheres, quase todas. Principalmente as que não são.

Mulheres em geral são responsáveis, centradas, focadas, sabem bem o que querem e o que não querem: uma maneira de dominar a loucura intrínseca que as tenta. Ainda por cima, mulheres são mães, o que elimina de vez a chance de saírem da casinha (a não ser que a criatura seja louca MESMO). Todas carregam dentro o gene da insensatez, mas a maioria se controla, precisa amamentar de duas em duas horas, não esquecer de buscar as crianças no colégio, providenciar arroz e feijão à mesa todo dia, como despirocar?

Então elas abafam o desatino (aquele mesmo desatino que quem não se responsabiliza por ninguém extravasa) e ficam ali curtindo a fantasia da demência em silêncio, imaginando: “E se?”.

E se eu fizesse minha mala, dissesse bye-bye para a família e fosse passar um ano meditando na Índia?

E se eu fizesse minha mala, dissesse bye-bye para a família e fosse morar sozinha num quarto-e-sala no centro da cidade?

E se eu fizesse minha mala e aceitasse aquele emprego em São Paulo? E se eu fizesse minha mala e fosse cursar teatro em Nova York? E se eu fizesse minha mala e comprasse um sítio para ter a horta, o pomar e o jardim com que sempre sonhei? E se eu fizesse minha mala e me alistasse num projeto voluntário para finalmente dar um sentido a minha existência?

Tem sempre uma mala a ser feita no mundo das mulheres pseudoloucas.

Ou mais grave: um homem.

E se eu casar com ele mesmo ciente de que ele tem três ex-mulheres e oito filhos? E se eu fugir com esse desmiolado que só sabe tocar violão e mais nada? E se eu me arrepender de largar esse esquizoide que me fez mais feliz do que todos os homens sensatos que conheci?

Loucura e amor são parentes consanguíneos.

Quem olha de soslaio para uma mulher, jura que ela é confiável. Quase sempre é mesmo. Mas chame-a de louca, mesmo ela não sendo de fato, e terás uma mulher secretamente realizada em seus braços. Loucas, era tudo o que desejávamos ser, não fôssemos obrigadas a levar a vida tão a sério. Afinal, alguém tem que monitorar essa baderna aí fora.



Jornal Zero Hora - 19 outubro 2014
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 15/10/14

Quartos de hotéis


A maioria das pessoas adora hotéis. Eu também adoro quando estou acompanhada, já que é sinônimo de lua de mel, minha modalidade favorita de viagem. O mundo lá fora deixa de importar e me converto: era exatamente o que estava precisando, um tempo alienado para praticar todo o amor que houver nessa vida.

Mas nem sempre estamos acompanhados. A inspiração deste texto veio da exposição fotográfica do argentino radicado na França Daniel Mordzinski, chamada Quartos de Escrita – Retratos de Escritores em Hotéis. Ele clicou 70 escritores hospedados em diversos locais do mundo. Há quem tenha sido captado em momento íntimo e introspectivo e há os que fizeram poses bem-humoradas. O elenco é de respeito: estão entre eles Saramago, Vargas Llosa, Jorge Amado, Umberto Eco, Philip Roth, Verissimo, Nélida Piñon, García Márquez, Jorge Luis Borges, Jonathan Franzen – a nata.

Literatura e hotel formam uma dupla mística. O Pera Palace, em Istambul, até hoje é conhecido como a segunda casa de Agatha Christie. Assim como ela, muitos autores iniciaram ou terminaram seus romances entre as quatro paredes impessoais de uma espelunca de beira de estrada ou de suntuosas suítes. Romances literários e romances carnais também – num hotel, tudo acontece.

Viajo muito a trabalho e conheço bem a sensação de ser uma escritora recolhida em um quarto isolado entre centenas de outras portas: também sou envolvida pela introspecção, mas não produzo. Nem uma única linha escrevo fora do escritório que mantenho em casa. Preciso da dinâmica dos dias para me impulsionar. 

Num quarto de hotel, o tempo sofre uma estagnação, a falta de rotina engessa os minutos e as horas. As Horas. Nome do romance de Michael Cunningham, em que ele escreve uma das cenas mais pungentes da literatura norte-americana, a fuga de uma dona de casa para um quarto de hotel a fim de resgatar sua solidão. Que melhor lugar para esse encontro íntimo?

Não sei se paro de viver quando estou sozinha num quarto de hotel ou se estou viva demais, além do que posso suportar. Para mim, trabalhar em um quarto de hotel significaria acolhê-lo e por ele me sentir acolhida, no entanto, não consigo invocar essa familiaridade. Preciso que a mística se mantenha: eu e ele com a respiração suspensa por sermos dois estranhos sabedores do nosso curto e estéril tempo de convívio. O nada define minha estada.

Sozinha num quarto de hotel, sou ninguém. Não escrevo porque perco minhas referências. A paz vira melancolia. Tudo é lindo, limpo, confortável, mas se alguém tentasse me fotografar, me pegaria totalmente fora de foco.

*Na próxima atualização do meu site, segunda-feira, postarei algumas fotos da exposição e demais comentários, em martha-medeiros.com



Jornal Zero Hora - 15 outubro 2014
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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Quer carinho? Quer cafuné? Quer cosquinha?


#somostodosquatis


hands on love


"A gente combina qualquer coisa romântica, 

tipo um amor com uma dose de compulsão,

 vertendo delicadezas, 

cheio de epifanias 

e que sentencie conforto das 

poucas horas que durar. 


Assim, nem precisa ser eterno."



(Ita Portugal)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 12/10/14

Um acordo com a infância

Tenho um amigo que só lembra coisas maravilhosas da sua infância, desde um balanço que havia no pátio da sua casa até os aromas inesquecíveis do café que a avó preparava todas as tardes. Suas memórias parecem um comercial de panetone. Teve uma vez em que nós, da turma, nos irritamos com ele.

Vem cá, você não lembra a vez em que seu pai te colocou de castigo sem razão, da vez em que você foi o único a não ser convidado para o aniversário de um colega de aula, da vez em que todos os seus primos combinaram de fingir que não ouviam nem enxergavam você, de como você morria de vergonha das espinhas, de quando escutou uma tia chamando você de filhote de cruz-credo?

Ele respondeu: não.

Ele não lembra essas coisas porque elas não aconteceram, mas certamente ele vivenciou algumas outras humilhações, teve que engolir raivas, sentiu-se desprotegido. Só que ele fez uma edição caprichada do filme da sua vida: deletou os maus momentos e salvou a parte boa, e é somente sobre ela que comenta com os amigos.

Mesmo a infância mais idílica tem seu lado soturno. O filho do meio que se sentia negligenciado pelos pais. A menina que era obrigada a se vestir de princesinha quando queria mesmo era jogar bola com os garotos. A vez em que o violão tão esperado não veio: Papai Noel trouxe uma gaita de boca. Sem falar nas questões barra pesada: fome, abusos, perdas. Todo adulto é o resultado de uma criança que, mesmo tendo tido avós rechonchudos, bolos, pracinhas, piqueniques, vira-latas, árvores de Natal e castelos de areia, teve que ser muito homem antes da hora. Ou muito mulher.

Aí crescemos e há duas opções: ou saboreia-se a vida, ou suporta-se a vida. Essa sutil diferença de verbo e de postura é consequência do quanto esse adulto conseguiu entrar num acordo com a própria infância. Se até hoje ele não perdoou o colega que o difamou na hora do recreio, se continua acreditando que teve culpa pelo atropelamento do cachorro e se não se conforma de nunca ter recebido um abraço do pai, vai continuar arrastando correntes vida afora, preso a um passado que já foi, já era, e que não vai mudar.

Meu amigo negociou do jeito dele: jura que nada de ruim o afetou na infância, nada, zero, nem o beijo negado pela namoradinha do bairro, nem a vez que quebrou o braço na rua e ficou na porta de casa esperando que alguém chegasse, nem de quando sua mãe esqueceu de buscá-lo na escola.

Ele conseguiu essa proeza: superar o fato de sua mãe ter esquecido de buscá-lo na escola no dia em que completava oito anos. Temos vontade de esganá-lo por ser uma criatura tão elevada. E ele, rindo, nos chama de crianções, nós que ainda não aprendemos, como ele, a deixar os dodóis do passado para trás.



Jornal Zero Hora - 12 outubro 2014
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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

quarta-feira, 8 de outubro de 2014



Daqui: Paroles
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[suspiro]

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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08/10/14

Cara limpa

Não sou analista política e não tenho conhecimento para avaliar o que faz com que um candidato se eleja e outro não. São inúmeras as variantes que levam a um determinado resultado, mas uma coisa me chamou a atenção nesse pleito: o discurso ensaiado não comove mais.

É tanta coisa em jogo numa eleição que os políticos se cercam de marqueteiros e assessores a fim de não desperdiçarem nem um segundo do seu tempo. Cada palavra, cada verbo, cada expressão é meticulosamente estudada para provocar tal e tal reação. Dá certo nas propagandas de maionese. Quando o produto é gente, não é bem assim: o eleitor percebe não só a embalagem e o slogan, mas o que fica subentendido.

Coloque uma câmera de TV na frente de qualquer pessoa e diga: está no ar, pode começar a falar. Não é fácil para ninguém. Nem para amadores, nem para profissionais. Porém, tem sido mais danoso justamente para os profissionais, que ao se tornarem figuras públicas assumem uma imagem farsesca e esquecem quem são de verdade. Ficam empertigados e exageram na sisudez. Não se permitem coçar a cabeça, sorrir, brincar. Mantêm o esqueleto rígido e a voz grave para transmitir autoconfiança absoluta. Mas quem é tão autoconfiante assim?

Estamos sedentos de gente espontânea, sincera, natural e falível. Gente que assume ter dúvidas e que se coloca disponível para tentativas reais, não para feitos heroicos. Sartori foi um exemplo. Recebeu mais de 2 milhões de votos e desconfio que metade de seus eleitores nunca tenha ouvido falar dele antes de agosto. Por que angariou tanta simpatia? Porque não agia como um boneco de corda, não tinha o texto decorado na ponta da língua, não se apresentou como super-herói. Extra, extra!

Havia alguém com essas características também na corrida presidencial: Eduardo Jorge, do PV. É claro que é mais fácil ser natural quando a visibilidade é pequena. Não tendo nada a perder, nenhuma declaração é arriscada. Mesmo eu levando essa vantagem dele em consideração, me pareceu outro exemplo de autenticidade.

A empáfia é cafona. Já não há paciência para lideranças empostadas e inacessíveis. Saindo da política para a religião: até os ateus saúdam o papa Francisco, por quê? Ora, porque tem gente ali dentro. Não é uma carcaça blindada circulando pelo mundo. Ele está no meio de nós – mesmo.

Falar com o coração, se abrir, desarmar-se, nada disso garante que a criatura será um bom governante. Naturalidade sem bons projetos, experiência e instrução não serve para nada. Ainda assim, prefiro quem mostra a cara àqueles que usam máscaras. Estou em campanha pela espontaneidade – na política e fora dela. Basta de semideuses de fachada. É hora de voltarmos a ver gente transmitindo alguma emoção.



Jornal Zero Hora - 08 outubro 2014
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