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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 27/08/14

As boas ações e as péssimas

Tudo o que pensamos é íntimo e não precisa ser repartido com ninguém. Todos nós temos o direito de guardar nossas opiniões, não é obrigatório dividir, seja para evitar constrangimentos, mal-entendidos ou porque falar muitas vezes não leva a coisa alguma. Assim como existe liberdade de expressão, também existe liberdade para ficar calado.

Pois o aplicativo Secret, que gerou tanta polêmica, conseguiu a proeza de misturar essas duas liberdades: a de expressão (você pode dizer o que bem entender) e a de ficar calado (como você não precisa se identificar, é como se não tivesse dito nada). E a perversidade deitou e rolou.

Existe um serviço telefônico chamado Disk Denúncia, que protege a identidade de quem liga. O objetivo não é estimular as pessoas a revelarem que uma determinada menina beijou outra na escola ou que o marido da sua amiga é amante da estagiária. É para que os cidadãos ajudem a combater a violência sem sofrerem represálias de bandidos.

Porém, afora as deduragens em prol de uma sociedade mais segura, revelar intimidades alheias a título de diversão e se valendo do anonimato nada mais é do que praticar tortura psicológica – há quem se sinta tão humilhado que chega a pensar em suicídio. Sei que a comparação é meio descabida, mas lembremos do depoimento que a jornalista Miriam Leitão deu semana passada.

Durante o período da ditadura militar, ela foi deixada totalmente nua numa cela escura, onde compartilhou da companhia de uma cobra – experimentou um pânico que a marcou para sempre. Guardadas as proporções, as cascavéis que proliferam nas redes sociais conseguem provocar algo parecido – despir e ameaçar –, o que demonstra que a maquiavelice humana tem graus variados e muda seus métodos, mas sempre deixa herdeiros.

Já levei vários baldes de água fria na cabeça. Quem não? Você sai de casa cheio de planos amorosos e leva a maior esnobada da pessoa com quem desejava ficar. Você se mata estudando para conquistar uma vaga de emprego e descobre que o dia da prova foi ontem. Você faz uma participação especial num filme dirigido por amigos e, quando vai assistir, a parte em que você aparecia foi cortada.

Eu já levei tantos que me considero devidamente encharcada. Espero que banhos metafóricos também sirvam para chamar a atenção para essa doença pouco conhecida que é a esclerose lateral amiotrófica, do qual a vítima mais notória é o físico Stephan Hawking. Quem não tem vontade de transformar a expressão “balde de água fria” em evento digital, mas gostaria de contribuir, aqui vão os dados: Associação Pró-Cura da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). CNPJ – 18.989.225/0001-88 Banco Bradesco (237), agência 2962-9, conta corrente 2988-2. Fácil, útil e ninguém se gripa.



Jornal Zero Hora - 27 agosto 2014
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terça-feira, 26 de agosto de 2014


Kalea Molloy – Strength of Beauty | Feather Of Me


"Coisa esquisita é esta da lembrança!

(....)

um ramo de flores, que não existe, cheira!"



(Miguel Torga)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 24/08/14

Feliz aniversário

Ela sabe que é um pensamento improdutivo, mas mesmo assim se preocupa com a passagem do tempo, parece uma menina assustada diante do acúmulo de números que sua idade vem ganhando. Não entende onde foram parar seus 16 anos, seus 21, seus 29, seus 35, seus 42.

Ora, onde eles podem estar? Todos ainda dentro dela.

Ao assoprar as velas, a sensação é de que o passado também se apaga e um presente totalmente novo é inaugurado. Sendo virgem da nova idade, é como se estivesse nascendo naquele específico dia com pequenas rugas e manchas surgidas subitamente, e não trazidas do antes. Como se estivesse vindo ao mundo na manhã do festejado dia com os quilos, as dores e os limites de um adulto recém-nascido e com uma expectativa de vida mais curta, sem registro algum do tempo transcorrido até ali, aquele tempo que sumiu.

Sumiu nada.

Você tem seus 16 anos para sempre. Seus 21. Seus 25 e todos os outros números que contabilizou a cada aniversário: você tem oito anos, você tem 19, você tem 37. Você só ainda não tem o que virá, mas os anos que viveu ainda estão sendo vividos, são eles que, somados, lhe transformaram no que é hoje. Sua idade atual não é uma estreia, você não nasceu com esses anos todos que sua carteira de identidade diz que você tem. Só o dia do seu nascimento foi uma estreia. Desde então, você nunca mais saiu de cena. Ainda estão em curso seus primeiros minutos de vida.

Você ainda sente o nervosismo das primeiras vezes, as mesmas dúvidas diante das escolhas, o afeto por pessoas que foram importantes lá atrás, a adrenalina dos riscos corridos. Nada disso evaporou. O ontem segue agindo sobre você, segue interferindo na sua trajetória. É a mesma viagem, a mesma navegação. O meio de transporte é seu corpo, e ele ainda não atracou.

Mas e todo aquele peso extra que você um dia jogou ao mar? Não muda nada. A viajante que durante o percurso vem se desfazendo de algumas coisas continua sendo você. Aquele instante aos 19 anos ou aos 26 em que você cruzou o olhar com alguém que modificaria seu futuro continua acontecendo, o ponteiro continua se mexendo, o tempo não parou. 

Desiludem-se os amantes apaixonados que, quando se instalam num amor maduro, não encontram mais a mágica anterior que fazia o tempo parar, mas não se deve ser tão fatalista, você não tem 18 anos, ou 37, ou 53. Você tem 18, 37 e 53. No que tange o tempo vivido, não há “ou”. São várias idades contidas numa frequência cardíaca ininterrupta.

Você chegou a uma idade gloriosa, a idade de entender que não existem perdas, só ganhos. Não existe envelhecimento, e sim desenvolvimento constante. O tempo não passa, ele está sempre conosco. O novo não ficou para trás, ao contrário, o novo está adiante: na vida que ainda está por vir.



Jornal Zero Hora - 24 agosto 2014
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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Not Only Photos Set12

"Tem batalha que a gente luta, e ninguém sabe. 
Tem dor que lateja de vez em quando, e ignoramos. Tem palavra que machuca e apenas sorrimos. Tem lágrima que implora pra sair, e desabafo que grita nos olhos. Tem lembrança que machuca a mente, e finca como espinho no coração. Tem coisas que machucam mais do que o primeiro tombo de bicicleta. E no meio disso tudo, a gente só quer que alguém leia-nos, pelas entrelinhas, nos embale no peito, e sussurre que tudo vá ficar bem, ainda que tudo diga que não. Porque só o amor cura as feridas da alma."




(A menina e o violão)


quarta-feira, 20 de agosto de 2014




Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 20/08/14

Mau tempo

Quando leio notícias como a do acidente que vitimou Eduardo Campos, me dá um mal-estar não só por ser mais um aviso sobre a precariedade da vida, mas por reconhecer que, quando não se morre de doença, se morre de chuva, de vento, de tempestade. É outro tipo de morte por causa natural.

As quedas de aeronaves são bem representativas. Dificilmente caem por desgaste mecânico. Ou são abatidas pelas mãos do homem (ataque terrorista e falhas humanas) ou são abatidas pela falta de visibilidade, pela instabilidade provocada por pressões atmosféricas, por arremetidas que são sempre manobras súbitas, e por isso o frio na barriga. Os problemas técnicos na aeronave do candidato à Presidência surgiram posteriormente à arremetida – se as condições meteorológicas fossem boas, tudo indica que teria aterrissado com tranquilidade.

Acidentes de carro acontecem mais em dias de pista molhada do que seca. Engavetamentos em estradas acontecem quase sempre por causa de nevoeiros, temporais e nevascas.

Pessoas perdem tudo o que têm em enchentes e deslizamentos de terra, barcos naufragam no mar revolto, ondas gigantes invadem praias, casas são destelhadas por tufões, suicídios acontecem mais no inverno do que no verão. A tragédia, decididamente, não é solar.

A vida muda – e até termina – por uma questão que está fora do nosso controle, o clima. Há paliativos, ok. Pode-se prever e minimizar os riscos, mas não se pode evitá-los, então somos ceifados por uma potência destrutiva que não vem da maldade do homem e sim do humor da natureza e que atinge a todos: crianças, velhos, pobres, ricos, pessoas de qualquer lugar, de qualquer idade, numa loteria democrática, mas sempre injusta.

Quando vejo moradores varrendo a lama de suas moradias no dia seguinte ao de um estrago devastador, me parece uma provocação: o céu límpido retorna ao local do crime com a maior cara de pau. O sol no dia seguinte ao de um tsunami é um convidado atrasado, alguém que não conseguiu chegar a tempo de impedir uma desolação. É bem-vindo porque traz a possibilidade de reconstrução, porém a reconciliação é provisória. Pessoas que perdem seus filhos, maridos e esposas para os desatinos climáticos são confrontadas com a total falta de lógica da existência.

Como diz uma amiga minha, “a morte é definitiva demais para o meu gosto”. De fato. E mais definitiva nos parece quando acontece de uma hora para outra, pelo capricho de nuvens pesadas, garoas insistentes, rajadas desestabilizadoras, umidades traiçoeiras, por um anoitecer prematuro, por relâmpagos, pelo cenário típico dos pesadelos, que, ironicamente, tem lá sua poesia e sua beleza, como em toda tragédia – desde que a gente sobreviva a ela, claro.

Ninguém deveria morrer de mau tempo, mas a natureza não negocia.



Jornal Zero Hora - 20 agosto 2014
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 17/08/14

O invariável

Outro dia escutei uma mulher separada decretar o fim da mesmice: resolveu se esbaldar na vida. Disse ela que não queria mais saber de relação fixa e que saía quase todas as noites a fim de se divertir apenas. Tem conhecido muitos caras diferentes, com alguns chega às vias de fato, e é isso aí, adeus à monotonia.

Mas o olhar dela não soltava faíscas, ao contrário, parecia bem opaco.

Naquele momento, lembrei uma frase do blog de um amigo paulista, o Eduardo Haak. Ele recentemente escreveu: “Nada é mais invariável do que as supostas variedades”. De primeira, quando li, me bateu uma estranheza, fiquei na dúvida se ele estava sendo irônico ou o quê, até que, ouvindo a moça baladeira contar de seus recordes de revezamento, me dei conta de que a situação dela era ilustrativa: toda variação que se torna sistemática também é mais do mesmo.

Ou seja, nada impede que a busca de um amor a cada sexta-feira se torne uma situação igualmente sujeita ao tédio. Virar refém da variedade pode ser uma atitude tão rotineira quanto dedicar-se a uma única pessoa por anos – arrisco até dizer que, ao dedicar-se a uma única pessoa, a chance de se ter uma vida mais dinâmica dispara.

Por quantas fases passa uma relação? O frio na barriga inicial, a paixão febril, as surpresas a cada nova revelação, as descobertas feitas a dois, a aproximação dos corpos, a intimidade cada vez maior, os amigos e a família agregando-se, cada viagem uma lua de mel, a troca de confidências, as diferenças aparecendo, os acordos feitos para manter a coisa funcionando, ajustes necessários, a paixão virando amor, a segurança da companhia um do outro, as fotografias se acumulando, planos sendo feitos a longo prazo, a primeira briga, as saudades.

A consciência de que aquela pessoa é essencial, o reatamento, as juras, os cuidados para que não desande nunca mais, todos os cinemas, cafés da manhã, leituras compartilhadas, risadas, os comentários de fim de festa, as piadas internas, a confiança, os cafunés, os pedidos de conselho, a hora de ser amigo, a hora de ser bandido, o sexo evoluindo, o amor se fortalecendo, a passagem do tempo trazendo novos desafios, o orgulho pelo que está sendo construído, os estouros, os gritos, os beijos de novo... ufa, alguém aí me alcança um copo d’água?

Amar não é para amadores, e quando a relação é honesta, sólida e os protagonistas têm algum tutano, duvido que o enfado dê as caras.

É a variedade de parceiros que evita o aborrecimento? Nunca funcionou comigo. Nem no amor, nem fora dele. A alucinada atualização de notícias, a velocidade das redes sociais, os dias pulsando em ritmo supersônico, tudo o que não permite foco e entrega, hoje em dia, só me causa bocejos. Aprofundar-se é que é a verdadeira vertigem.



Jornal Zero Hora - 17 agosto 2014
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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 13/08/14

Onde fui amarrar meu bode?

Sempre simpatizei com essa expressão, tanto que a uso direto em conversas entre amigos, mas nunca a relacionei com meu trabalho. Pois chegou o momento: onde fui amarrar meu bode na hora em que resolvi dar pitaco sobre Torres?

Não leio o que rola nas redes sociais, mas já soube que fui esculhambada num grau temeroso: não duvido que temperem minha casquinha de siri com soda cáustica caso eu ouse retornar à cidade.

Bom, aos fatos. Quarta passada, publiquei uma bronca por a praia da minha infância não ter realizado seu potencial, com a burrada de ter falado em beleza, charme e bom gosto quando se sabe que são valores relativos, e de ainda ter concluído o texto subestimando o estrago dos prédios altos à beira-mar, como quem diz: perdido por um, perdido por mil. Com 20 anos de colunismo nas costas, eu já deveria ter aprendido algumas coisinhas sobre o poder desastroso das ironias.

A boa notícia é que estou desinformada, segundo os moradores. É possível. Fui a Torres poucas vezes nos últimos anos, por no máximo 48 horas, sendo que a última foi em fevereiro deste ano, quando me hospedei na Prainha, que é onde a Torres real ainda equaliza com a Torres da minha fantasia.

Não circulei, não fiquei 10 dias, um mês, e por isso não sabia nada sobre o que me contaram: que a atual gestão está empenhada em corrigir os descasos das gestões anteriores, que Torres faz parte de uma Rota Gastronômica, que há muitos hotéis e pousadas de primeira linha, que turistas estrangeiros costumam visitar a cidade com frequência, que um cinema 3D será inaugurado em novembro, que não há mais areia sobre o calçadão e que eu sou uma toupeira, claro.

Assim como eu não sabia dessa evolução toda, talvez muitos brasileiros também não saibam, já que Torres não costuma ser indicada como destino turístico imperdível. A revista Claudia, publicação feminina de maior circulação do país, veiculou uma matéria na edição de julho cujo título foi “Seja bem-vindo, tchê!”, em que personalidades nacionais nascidas aqui (escritores, atores, atletas, blogueiros, apresentadores, chefs de cozinha) recomendavam os lugares que não se deve deixar de visitar no Rio Grande do Sul.

Eles citaram as cidades da Serra, os aparados, os vinhedos, o pampa, algumas cidades do Interior e a Capital. O esquecimento da mais bela praia do litoral gaúcho pode ter sido por causa do inverno, mas aconteceu: Torres foi mencionada uma única vez. Modestamente, por mim. Que minha defesa arrole isso nos autos.

Continuo achando que Torres merecia uma infraestrutura turística de muito mais qualidade, mas já que os moradores garantem que estão chegando lá, retiro o desânimo, peço desculpas pelo mau jeito e em breve voltarei à cidade para conferir in loco. Garçom, a minha caipirinha sem cianureto, por favor.



Jornal Zero Hora - 13 agosto 2014
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014




Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 10/08/14

Filhos do pai

Dia desses, eu ouvi que sou um homem moderno porque cuido dos meus filhos. E minha ex disse que é uma mulher moderna e, por isso, não pode gastar seu tempo cuidando das crianças, ela tem sonhos a alcançar. É tão estranho. Uns são modernos porque fazem e outros porque deixam de fazer a mesma coisa. Como explicar isso para os meninos?”

É um dos depoimentos que compõem o livro Filhos do Pai, de Valeria Santoro e Ana Paula Junqueira. Eu poderia ter selecionado qualquer outro, mas esse me pareceu bem representativo do que anda acontecendo: um contrafluxo. Mulheres saindo para caçar seu sustento e homens retornando para o interior das cavernas. Uma troca salutar de papéis, desde que a inversão não se polarize, agora de forma oposta. Perfeito seria que homens e mulheres negociassem a distribuição do seu tempo a fim de não prejudicar a criação dos filhos, ainda mais durante a primeira infância. Como tudo na vida, o parâmetro é o bom senso.

O livro da Valéria e da Ana Paula mostra uma revolução visível, ainda que silenciosa: os homens estão cobrindo nossas ausências. Cozinham mais, se envolvem mais com os afazeres domésticos, começam a expor mais seus sentimentos e, para o bom equilíbrio emocional da família, abandonaram a posição de pais distantes e agora tomam conta da gurizada com o afeto e o cuidado que antes era exclusividade feminina da casa. Ganham todos, de todos os lados.

Os depoimentos mostrados em Filhos do Pai privilegiam histórias de abandono de lar por parte da mãe, viuvez e outras situações em que não resta alternativa a não ser o homem assumir integralmente o cuidado com o filho. No entanto, essa súbita mudança que parece aterrorizante no início se transforma numa experiência de entrega e amor que ele próprio não se julgava capaz. É nessa condição que o livro se torna emocionante: homens amplificam o significado de suas vidas quando deixam de amar à distância para mergulhar num convívio de absoluto envolvimento e responsabilidade (que, não custa lembrar, também aterroriza mães de primeira viagem, porém a elas nunca coube escolha).

A boa notícia é que as mulheres não estão precisando sumir do mapa ou morrer para que os homens assumam o compromisso de criar seus filhos: a sociedade atual vem introduzindo naturalmente a divisão proporcional de papéis. E a notícia melhor ainda: os homens estão gostando.

Sempre se valorizou mais o Dia das Mães do que o Dia dos Pais, não pela intensidade do amor de um e de outro, mas pela intensidade do comprometimento. Pois que a data de hoje passe a ser tão celebrada quanto a de maio, e que os filhos dos novos pais mantenham essa mesma dedicação quando chegar a vez deles.

Que essa modernidade dure séculos - ou ao menos até a próxima revolução de costumes.



Jornal Zero Hora - 10 agosto 2014
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014


Miley

"Quando achar que é o suficiente, dê mais um beijo. 
Diga mais uma vez “eu te amo”. 
Solte mais um sorriso. 
Fique mais vinte minutos e dê mais um último abraço. 
Tratando-se de amor, é melhor errar por excesso."


(Lucas Lujan)


Para ler mais Lucas Lujan: Vila Badulaques

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 06/08/14

Era uma vez Torres

Tenho acompanhado o debate em torno do novo plano diretor de Torres, cidade onde passei os melhores momentos da infância e adolescência, e que se mantém viva na minha memória afetiva. Até 2006, tinha apartamento na cidade, e ainda sonho em ter outro refúgio onde possa estar perto do mar, porém não mais lá.

Ao ler sobre a possível autorização para construir prédios de até 10 andares na orla, minha primeira reação foi ser contra. Concordei com quem é desfavorável à mudança da lei: haverá menos tempo de sol batendo na praia, descaracterização do cenário, menos ventilação natural etc. Mas, depois, com desânimo, refleti: a esta altura, que diferença faz?

Já viajei bastante e posso dizer que, em termos de belezas naturais, Torres é páreo para vários outros cartões-postais do planeta. As formações rochosas que se estendem da praia da Cal até a praia da Guarita, e as dunas logo atrás, produzem um efeito dramático espetacular. O mar pode não ser cristalino, mas compõe a cena dignamente. Seria um dos pontos turísticos mais valorizados do Brasil, não fosse todo o resto.

E o resto são ruas esburacas e desniveladas, cômoros que se amontoam calçadão adentro, pouca arborização, nenhum cinema, vida noturna precária, comércio idem (estou falando como turista, não como moradora, pois imagino que os moradores tenham reivindicações mais urgentes).

Ainda na visão de turista: surpreende que sejam os donos de bares e restaurantes os maiores apoiadores da urbanização vertical a fim de alavancarem seus negócios. Logo eles, que, salvo exceções, não investem em seus próprios estabelecimentos, ignorando questões como boa iluminação, boa música, aconchego, fachada decente. Torres parece ter esquecido noções básicas de bom gosto. Quer ser grande sem atentar para o quanto se tornou feia, desprezando sua vocação para ser um hot spot. Cidades feias não atraem visitantes, não geram comentários positivos, não viram destino de lua de mel.

Sei que não adianta ser nostálgica e querer que Torres volte a ser aquela charmosa praia familiar onde aconteciam os campeonatos de surf, as festas na sede da SAPT, os piqueniques em Itapeva, os jogos de vôlei nos amplos quintais das casas dos veranistas. Foi outro tempo, e não se pode deter o desenvolvimento, mas pode-se tentar preservar o espírito do lugar, crescendo ordenadamente e com foco: Torres não é um subúrbio qualquer, e sim um local diferenciado pelo seu recorte geográfico. Isso não deveria ter sido desconsiderado.

Mas foi. Torres perdeu o timing, cresceu demais sem elaborar um projeto para honrar a cidade privilegiada que era. Agora é difícil recuperar o potencial desperdiçado. Já que não vingou como merecia, talvez seja mesmo hora de um plano B – vá que funcione imitar Camboriú.



Jornal Zero Hora - 06 agosto 2014
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