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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 23/07/14

Uma vida melhor que a encomenda

Que dias! Quantas baixas na nossa literatura. Lamentei a morte de João Ubaldo, pois sempre dói a partida de quem ainda tinha muito a contribuir (a morte de um grande escritor é sua obra inacabada), e estou compadecida com a fragilidade da situação do espetacular Ariano Suassuna (em coma até o momento em que escrevo), porém usarei esta coluna para falar de uma ausência que me tocou mais profundamente: a do mineiro Rubem Alves, por quem eu tinha enorme afeição não só pelo que escrevia, mas pelo seu jeito terno, sua desafetação, sua raridade como ser humano. Quanto mais se grita e esperneia por aí, mais atenção eu dou aos singulares que brilham em voz baixa.

Domingo passado, comentei sobre o documentário Eu Maior, em que Rubem Alves também participou com seu testemunho. Entre outras coisas, ele contou que certa vez um garoto se aproximou dele para perguntar como havia planejado sua vida para chegar onde chegou, qual foi a fórmula do sucesso. Rubem Alves respondeu que chegou onde chegou porque tudo que havia planejado deu errado.

Planejar serve para colocar a pessoa em movimento. Se não houver um objetivo, um desejo qualquer, ela acabará esperando sentada que alguma grande oportunidade caia do céu, possivelmente por merecimento cósmico.

É preciso querer alguma coisa – já alcançar é facultativo, explico por quê.

Uma vez determinado o rumo a seguir, entra a melhor parte: abrir-se para os acidentes de percurso. Você que sonha em ser um Rubem Alves, é possível que já tenha começado a escrever num blog (parabéns, pôs-se em ação). No entanto, esses escritos podem conduzi-lo a um caminho que não estava nos planos. Dependendo do conteúdo, seus posts podem levá-lo a um convite para lecionar no Interior, a ser sócio de um bar, a estagiar com um tio engenheiro, a fazer doce pra fora, a pegar a estrada com um amigo e acabar na Costa Rica, onde conhecerá a mulher da sua vida e com ela abrirá uma pousada, transformando-se num empresário do ramo da hotelaria.

Não é assim que as coisas acontecem, emendando uma circunstância na outra?

A vida está repleta de exemplos de arquiteta que virou estilista, enfermeiro que virou pastor evangélico, estudante de Letras que virou maquiadora, publicitário que virou chef de cozinha, professor que virou dono de pet shop, economista que virou fotógrafo. Tem até gente que almejava ser economista, virou economista, fez uma bela carreira como economista e morreu economista. A vida é surpreendente.

Ariano Suassuna largou a advocacia aos 27 anos, João Ubaldo também se formou em Direito, mas nem chegou a exercer o ofício, e Rubem Alves teve até restaurante. Tudo que dá errado pode dar muito certo. A vida joga os dados, dá as cartas, gira a roleta: a nós, cabe apenas continuar apostando.



Jornal Zero Hora - 23 julho 2014
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sunset by Martin Marinov

A vida sempre me diz “Não tente me controlar”, 

mas eu finjo que não entendo. 

O que ela quer de mim é coragem (...).

E eu faço de conta que sou corajosa. 

Mas faço tão bonito, que ela até acredita.




(Cris Guerra)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 20/07/14

Você maior

As redes sociais alimentam, mas não são as únicas responsáveis pela egolatria que tomou conta do mundo. Vivendo numa bolha chamada sociedade de consumo, cada um de nós passou a ser encarado como um produto e, como tal, precisa se vender. 

Para se colocar bem no mercado do amor e no mercado de trabalho, tornou-se obrigatório apresentar um perfil, e então tratamos de falar muito sobre nós, sobre nossos atributos e tudo o que possa fazer a gente avançar em relação à concorrência, que não é pequena. Somos os publicitários de nós mesmos, uns mais discretos, outros mais exibidos, mas todos procurando encantar o próximo, que propaganda nada mais é do que isso: a arte de seduzir.

Contraditoriamente, quando se torna necessário falarmos não de nossos atributos, mas de nossas dores, de nossas inseguranças e de nossos defeitos, fechamos a boca. Mesmo os que estão bem perto, aqueles que nos são íntimos, não escutam a nossa voz. Calamos por temer um julgamento sumário. Produtos precisam ser eficientes, não podem ter falhas.

A boa notícia é que tudo isso é um absurdo. Não somos um produto. Não precisamos de slogan, embalagem, jingle. Estamos aqui para conviver, e não para sermos consumidos. E, se quisermos que realmente nos conheçam, o ideal seria parar de nos anunciarmos como o último copo d’água do deserto.

O documentário Eu Maior, um dos trabalhos mais tocantes a que assisti nos últimos tempos, traz o depoimento de filósofos, artistas, cientistas e ambientalistas sobre quem verdadeiramente somos e como devemos nos relacionar com o universo. Entre várias colocações ponderadas, teve uma de Marina Silva que tomei como uma lição de comportamento: “Você descobre a qualidade de uma pessoa não quando ela fala de si, mas quando ela fala dos outros”.

Ou seja, o que revela sua verdadeira natureza são os comentários venenosos que costuma distribuir ou os elogios que faz sobre amigos e desconhecidos. São as fofocas que oculta para não menosprezar seus semelhantes ou que espalha por aí, acrescentando uma maldadezinha extra. Você é avaliado de forma mais precisa através da sua capacidade de enaltecer o positivo que há ao seu redor ou de propagar o negativismo que sobressai em tudo o que vê.

Você demonstra que é uma pessoa maior – ou menor – de acordo com sua necessidade de diminuir ou de valorizar aqueles que o rodeiam, de acordo com um olhar que deveria ser justo, mas que quase sempre é competitivo. É através das suas palavras amorosas ou das suas declarações injuriantes que os outros saberão exatamente quem é você – pouco importando o que você diga sobre si mesmo.

Sobre você mesmo, deixe que falemos nós.



Jornal Zero Hora - 20 julho 2014
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O filme já tinha aparecido aqui no blog: Eu Maior
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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 16/07/14


Pop up

Pop up é um conceito que é a cara dos tempos de hoje, em que tudo precisa ser rápido, objetivo, focado. É o caso dos food trucks, pequenas caminhonetes estacionadas em pontos estratégicos da cidade por um tempo limitado e que oferecem refeições ligeiras e de qualidade – uma diversificação gabaritada das carrocinhas de cachorro-quente e trailers de xis-tudo. Em Nova York e São Paulo a moda já pegou, em Porto Alegre está começando. Sob a chancela dos guris dos Destemperados, que vêm divulgando a comida de rua como uma bem-vinda experiência gastronômica que acontece em bairros variados, consegui, por fim, conferir. 

Na última sexta-feira o almoço foi na Praça Japão, preparado pelo pessoal do restaurante Barbanegra: entrecot com batatas a 15 pilas, ao ar livre, num dos recantos mais charmosos da capital. Para potencializar o evento, que contou com céu aberto e temperatura amena, eu e algumas amigas resolvemos transformar o programa em piquenique, com direito a toalha xadrez sobre a grama e vinho branco trazido de casa – que eu não bebi porque tinha que trabalhar à tarde, juro.

Tá, dei só três golinhos. E estava a pé, seu guarda.

Outros eventos como este pipocarão (pop up!) pela cidade, ainda mais quando chegar a primavera. Receba-os como um convite para quebrar a monotonia dos dias, sair da rotina, conhece gente nova. Aquilo tudo que você coloca na lista de resoluções de fim de ano e nunca cumpre. 

Se eu não precisasse ficar tanto tempo dentro de casa trabalhando (e estou em vantagem se comparada a quem passa esse mesmo tempo dentro de um escritório, já que em casa não preciso participar de reuniões e cumprir horário fixo), desfrutaria muito mais a cidade. A cidade! Eis um conceito que também vem se atualizando. Muitos pensam que cidades são aqueles lugares que a gente visita quando está de férias – Rio, Buenos Aires, Paris. Anotamos as dicas que saem nas revistas e lá chegando viramos exploradores de seus parques, bistrôs, galerias, extraindo sensações espetaculares de cada rua, de cada monumento, de cada novidade que se apresenta. Como seria morar lá? Suspiros.

Pense: por que nossa própria cidade não pode ser a cidade dos nossos sonhos? Vamos esperar outra Copa para nos sentirmos incluídos no mapa-múndi? Porto Alegre cresceu e se expandiu. Hoje abraça todas as tribos, possui atrativos para todos os gêneros, idades e sexos. O metrô ainda vai demorar uns 100 anos, a revitalização do cais um pouco menos, talvez uns 50, mas releve-se, não há mais justificativa para o complexo de provincianos que até tempo atrás ainda cultivávamos. Viramos cidade grande. (Será que tomei mais de três goles na Praça Japão?)  

Porto Alegre não é demais, como diz a música, mas é suficiente. Que esse seja um dos legados da Copa: o olhar estrangeiro sobre nós mesmos, provando e aprovando-nos como se fôssemos Rio, Buenos Aires, Paris – só que aqui.


Jornal Zero Hora - 16 julho 2014
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Sobre o filme "A Culpa é das estrelas"...






Sem mais.






terça-feira, 15 de julho de 2014


(4) Tumblr

"... fica decretado que todo mês de julho (mas pode ser junho, agosto, pode ser sempre, quando as almas andarem escuras e as pessoas não se amarem mais) haverá dez ou quinze dias de sol (dependendo do peso da barra a ser aliviado) e luz para que todos enlouqueçam um pouco de prazer.[...] Nesse período, ficam intimados os humanos a interromper as dores, a esquecer as mágoas, a adiar as dívidas, a perdoar os outros."



(Caio F. Abreu)

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 13/07/14

Copa rock´n´roll

Hulk na guitarra, Cahill no baixo, Maya Yoshida na bateria e Eto´o no vocal. Essa é a banda de rock que entrou no palco para tocar Paradise City, do Guns nRoses. Não é delírio meu, e sim um inusitado comercial de cerveja que começou a ser veiculado antes do início da Copa, com craques das seleções de Brasil, Inglaterra, Japão e Camarões brilhando em outro campo. Para quem está acostumado a ver o futebol associado ao pagode, a ideia publicitária pode ter parecido estapafúrdia, mas eu achei coerente. Toda Copa é meio rocknroll.

Mais de uma vez escrevi sobre minha paixão pelo rock (e pelo blues que lhe deu origem). Por mais que admire outros gêneros musicais (jazz, soul, pop, bossa nova), tenho com o rock uma afinidade que extrapola o simples gostar – tanto que o uso como adjetivo.

Criança ainda, vibrava com Janis Joplin, Tina Turner e Rita Lee, que, através da sua música, traduziam uma essência difícil de transmitir em palavras. Nada nelas era conveniente em se tratando de “mocinhas”, e sim provocativo, sexy, autêntico, livre. Não era um som para relaxar, e sim para impulsionar, produzir reações físicas, alterar comportamentos. Por mais surrado que seja o termo, é o que se chama, até hoje, de “atitude”.

Da mesma forma, tive pelos Beatles e Rolling Stones a mesma reverência que muitos têm por Bach, Mozart, Chopin – a existência de gênios clássicos não elimina a influência de simples mortais que também emocionam. Exatamente há um ano, estive num espaço aberto maior do que o Maracanã para assistir ao vivo, pela primeira vez, a um show dos Stones, e quando eles entraram em campo fiz o mesmo que Thiago Silva, David Luiz, Julio Cesar: chorei. Pois é. O rock, parente de Satanás, costuma me conectar com meus instintos mais primitivos, enquanto os anjos tapam os olhos.

Hoje, 13 de julho, Dia Mundial do Rock, é dia também do encerramento dessa Copa em que o primitivismo esteve flagrante nos gramados, através de lances que combinaram mais com guitarras do que com pandeiros. O ilícito e o lícito disputando a bola com atrevimento, garra, provocação, jogo de quadris, paixão, rebeldia, sensualidade – e atletas venerados como rockstars. Tudo muito exagerado, mas bem-vindo, nem que seja de quatro em quatro anos.

Esse texto foi entregue com uma antecedência que me impede saber quem estará decidindo o título neste domingo, mas, seja quem for, que provoque pela última vez, em cada torcedor, a excitação recorrente no rock, aquela que faz a gente trocar o etéreo pelo visceral, o recato pela explosão, já que na segunda-feira o barulho inevitavelmente diminuirá. Retornaremos à alegria comedida, a um ritmo menos eletrizante, a um jeito de viver mais sossegado, à normalidade dos dias, à trivialidade popular brasileira.


Jornal Zero Hora - 13 julho 2014
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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 09/07/14

Homens

Mulheres, não reclamem. Nunca se viu tanto homem, ao menos na tevê. Viva a Copa, que deixará saudades. Mas quem quiser se aprofundar um pouquinho no mundo masculino, troque a tevê pelo cinema, a fim de assistir ao filme espanhol O que os Homens Falam. Nele, cinco esquetes expõem as crises de meia-idade dos nossos queridos. A presença do argentino Ricardo Darín é a cereja do bolo, mas os demais atores são excepcionais também.

Divertido, inteligente e enternecedor. Quando cheguei em casa, ainda trazia um sorriso no rosto, tal é a leveza desse filme que desmistifica o macho alfa, revelando os homens como realmente são: falíveis, infantis e doces, até mesmo os cafajestes. Até eles.

A luta feminina pela conquista de direitos é legítima e necessária, mas criou uma atmosfera de campo de guerra – o homem passou a ser visto como o predador que deve ser combatido, o responsável por todas as infelicidades que nos atormentam.

Se são, é porque damos a eles o protagonismo de nossas histórias românticas e eles acabam se transformando em inimigos íntimos, mas culpa, culpa mesmo, ninguém tem de nada. Tanto eles como nós somos igualmente cerebrais e emotivos. O que nos difere, talvez, seja o humor, que é a maneira como externamos nosso ponto de vista sobre o que acontece.

E aqui entro em campo minado, prestes a receber uma saraivada de insultos das minhas parceiras de gênero: considero o humor masculino mais interessante. Há quem diga inclusive que não existe humor feminino – quando ele funciona, é porque é masculino também. Pode ser. A mulher recorre à caricatura e ao exagero para tornar-se engraçada – somos as rainhas do drama, como se sabe. Já o humor masculino é reflexo de uma observação realista – eles extraem graça do inevitável, e isso me parece extremamente comovedor.

Homens riem de si próprios com economia, sem excessos. Puro charme. É isso que encanta nos personagens de O que os Homens Falam. Não são inflamáveis, e sim discretos, falam com poucas palavras, e também através de gestos e olhares sutis.

O humor deles seduz (ao menos a mim) porque não é cênico, teatral, e mesmo quando existe a intenção de fazer rir, o fazem sem alarde – Woody Allen e Luis Fernando Verissimo têm isso em comum, para exemplificar. É um humor que não sei como adjetivar de outra forma, a não ser dizendo o óbvio, que é um humor masculino no que o homem tem de melhor: a desafetação.

Do cinema realista para uma tragédia grega contemporânea: a peça A Vertigem dos Animais antes do Abate, mais um projeto liderado por Luciano Alabarse, fica em cartaz no Theatro São Pedro de amanhã até domingo. A nossa bestialidade primitiva em cima do palco, a nu, com elenco, direção e música de primeira. Para adultos de estômagos fortes – masculinos ou femininos.



Jornal Zero Hora - 09 julho 2014
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Ainda bem.





Daqui: Mônica Crema

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