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quinta-feira, 30 de junho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 29 06 16

A vida sob outra perspectiva


Uma relação amorosa vale quando você sai dela mais madura do que quando entrou. Uma viagem vale por termos voltado para casa mais abertos do que quando embarcamos. E um livro, mesma coisa: ele compensa quando a gente percebe que encerrou a leitura mais consciente do que quando a iniciou.

Foi esta a sensação que me deu ao terminar o livro da cantora Olivia Byington, O que é que ele tem. Conheço Olivia, já estivemos juntas algumas vezes, temos uma grande amiga em comum, mas nunca soube dos pormenores de sua vida íntima. Então, descubro que ela teve um primeiro filho com uma síndrome rara, e é sobre ele que Olivia escreve, escancarando um mundo novo para nós. Um mundo novo que não deveria ser novo, pois ela fala basicamente sobre delicadeza.

Acontece que a delicadeza tem sido mais rara do que a síndrome de Apert, que gera as terríveis deformações que tornaram o filho da Olivia diferente, e esse é o tema do livro: como lidar com a diferença. Não apenas a diferença entre uma criança com ou sem síndrome: a diferença entre um ser humano com delicadeza e outro não – e aí ela se refere a nós.

Eu sei que é difícil a gente não reagir com estranhamento diante do que é incomum, mas quanto tempo deveria durar um estranhamento? Em quanto tempo ele deveria evoluir para o acolhimento, o afeto, a compreensão?

O livro é tocante por inteiro, mas tem dois momentos que me emocionaram além do previsível. Um deles é quando Olivia narra a dificuldade em matricular o filho João nas escolas, e mesmo quando consegue, sofre com a maneira como ele é tratado. Ela então faz uma defesa incontestável da inclusão: quando uma criança com deficiência convive com crianças sem deficiência, são as “perfeitinhas” que ganham com isso, pois têm a oportunidade de desenvolverem a tolerância, aprenderem sobre superação e abrirem-se para a complexidade da existência. Óbvio. Olivia mostra com clareza como a convivência com os diferentes potencializa nosso aprendizado e nos faz valorizar ainda mais nossas bênçãos.

Outro momento que me fez suspirar. João passou por inúmeras cirurgias de reconstrução de face e órgãos, sofreu o diabo, submeteu-se a verdadeiros suplícios e flagelos para que seu organismo se adaptasse minimamente a fim de ter uma vida normal – um normal bem longe do que conhecemos. Ainda assim, em uma das vezes em que saiu do longo período no hospital e retornou para casa depois de mais um calvário, instalou-se em seu quarto e, pelo simples acesso a este pequeno conforto, exclamou:

– Ah, que vida boa. A gente reclama do que mesmo?



Jornal Zero Hora - 29 junho 2016
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segunda-feira, 27 de junho de 2016

sábado, 25 de junho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 26 06 16

Fator de descarte 2


Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”. Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender

Anos atrás, escrevi uma crônica chamada Fator de descarte, em que eu perguntava qual seria o deslize fatal que desmotivaria o prosseguimento de uma relação. Na época, dei o exemplo de uma amiga que estava no carro com o rolo novo e que o dispensou assim que ele, ao ouvir uma canção do Tom Jobim, disse que não suportava aquele xarope.

Amor não é coisa que tem dado sopa por aí, então, mesmo o cara tendo péssimo gosto musical, convém dar mais uma chance a ele – eu daria. Porém, nem todos são tão complacentes. Um amigo me disse, outro dia, que estava começando a trocar mensagens com uma garota, até que ela escreveu que adorava percorrer a orla de biscicleta. Biscicleta com sc foi o fator de descarte dele.

De fato, é grave, mas nestes tempos em que todo mundo tem iniciado relações através das redes sociais, sendo obrigado à escrita, é bom reduzir o grau de exigência, senão adeus cobertor de orelha para atravessar o inverno.

Erros clássicos proliferam: “despretencioso”, “encomodar”, “excessão”. Recentemente, uma escritora escreveu de forma errada a palavra exceção em seu Facebook: quem nunca? Na pressa em digitar um post contra a bandalheira do país, escapou um erro ortográfico sem revisão. Pelo mesmo motivo (a política), um músico escreveu que estávamos no fundo do posso. Ó, céus. Se até com eles, que dominam o português, acontece, imagine com quem não tem o hábito de ler livros, que é a maioria.

Muitos leitores me mandam e-mails bacanas e, ao final, pedem desculpas antecipadas por alguma eventual mancada na digitação. Quase sempre, são justamente eles que não cometem mancada alguma. Digo para relaxarem, pois costumo ficar mais ligada no conteúdo do que na forma. Eu mesma, em mensagens ligeiras, escorrego. E inclusive nas nem tão ligeiras: outro dia, numa crônica, troquei “sobre” por “sob” e não me conformo, como deixei passar? Vacilei. Não me descartem por isso, tenho defeitos piores.

Escrever corretamente é uma obrigação. Nada causa melhor impressão do que um texto limpo, claro e bem escrito, mas diante da falência da nossa educação e do lamentável índice de leitura do país, melhor ampliar nosso crédito amoroso para com os descuidados. Já me apaixonei por quem escrevia feito um poeta, mas também por quem escrevia “quizer” e “denovo”, assim, tudo junto. 

Meu fator de descarte, nestes casos, é a boa ou a má vontade em aprender. Se a pessoa aceita e agradece quando é carinhosamente corrigida, está salva, é sinal de que é inteligente. Mas se fica ofendida, aí o problema não é o erro gramatical, e sim a falta de humildade e a tacanhice em não querer melhorar. Pra essas, condescendência zero – agora sim, com sc.


Jornal Zero Hora - 26 junho 2016
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Who knows? Perhaps your love will make me forget all I wish not to remember. | Alexandre Dumus, The Count of Monte Cristo:


"Dona de uma fineza absoluta

na sala, Sartre 

na cama, Sutra.”



(Múcio Góes)

quinta-feira, 23 de junho de 2016



<3

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 22 06 16

Recuperando o foco


Em Barra Mansa, RJ, um rio divide um bairro em duas partes, mas em apenas um lado há posto de saúde. Os moradores do outro lado precisavam caminhar dois quilômetros para circundar o rio a fim de chegar ao posto, e por isso vinham solicitando à prefeitura a construção de uma pequena ponte. Ela foi orçada em R$ 270 mil e nunca foi feita, então os moradores reuniram doações e em mutirão construíram a ponte eles mesmos – por R$ 5 mil e em oito dias. Os dois quilômetros de caminhada foram encurtados para 24 metros e agora todos vivem melhor.

Se fosse no Japão, o prefeito da cidade daria um tiro na própria cabeça, de vergonha.

Também graças a doações, jovens voluntários da Teto construirão 50 casas populares entre 23 e 28 de julho em comunidades pobres de Campinas. Isso mesmo: em seis dias. Por que o governo leva tanto tempo para entregar um lote habitacional, para consertar uma estrada, para reconstruir uma ciclovia, para terminar uma obra? Por que não há seriedade com questões como aproveitamento de recursos e cumprimento de prazo?

A política brasileira está caindo de podre e em breve, espero, haverá renovação, mas, além de novas lideranças, precisamos de uma nova mentalidade. O provincianismo do Brasil está em focar apenas em grandes feitos a fim de ostentá-los. Isso não é riqueza, e sim estupidez.

Num país rico e elegante pra valer, as pessoas (políticos inclusive) vão para o trabalho de metrô e bicicleta, as crianças estudam em ótimas escolas públicas, todos os membros da família se ocupam do serviço doméstico, as festas não custam o preço de um apartamento, as pessoas envelhecem sem abusar de cirurgias estéticas e arte é de primeira necessidade. Por que não somos esse país rico e elegante? Não é por falta de dinheiro – somos milionários. Dinheiro nunca faltou para roubos, desvios, superfaturamentos.

O problema é que trocamos eficiência por desperdício. Não sabemos focar no que importa de verdade. Valorizamos mais a fantasia (o discurso, a retórica, as aparências) do que a realidade. A gente se ilude com uma “ponte de R$ 270 mil” que nunca sairá do papel em vez de concretizar a humilde ponte de R$ 5 mil que resolve.

Estamos em crise, e uma crise forte, sem prazo pra acabar. É obrigatório cair na real e viabilizar um Brasil onde todos tenham uma casa que não desabe na primeira chuva, onde as escolas sejam lugares lúdicos e estimulantes, onde os caminhões que escoam a safra possam chegar ao destino sem quebrar por causa de um buraco no caminho, onde, em vez de molhar a mão de corruptos, as prefeituras mantenham dinheiro em caixa para pagar policiais, médicos, professores e demais profissionais que fazem uma nação existir como tal.

Todos nós, brasileiros, precisamos recuperar o foco imediatamente e extrair da simplicidade a nossa evolução.



Jornal Zero Hora - 22 junho 2016
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quarta-feira, 22 de junho de 2016



MF:
"Seria mais ou menos isso, o que diria, 
uma boa vó que se preze:

- Trate de viver , e muito bem, meu bem, 
cada momento. Eu sei que parece que passa lento, mas é feito vento, que passa, e passando, passa, e quando vê-se, só nos restam lembranças, então: faça com que sejam boas as tuas lembranças, porque no fim, lembrança será tudo 
o que você vai ter..."


(Be Lins)

sábado, 18 de junho de 2016

Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 19 06 16

Intuição

Todos têm, até os que a desconsideram. Também conhecida por sexto sentido, é algo abstrato que surge do nada e se acomoda no seu íntimo

Você não sabe explicar. Segundos antes de decidir se deve ou não se intrometer numa conversa, se deve ou não aceitar um convite, se deve ou não reagir, passa por sua cabeça um pensamento rápido que não chega a ser organizado em palavras. Antes de você considerar as opções usando a lógica, é atingido por um lampejo que prevê o desfecho antes mesmo de você analisar a situação. É como se alguém lhe assoprasse no ouvido: não vai funcionar, fique fora disso, não é pra você.

Você escuta essas frases ditas sem voz e vindas de um lugar sem nome. Como chamar essa percepção tão fugaz? Chame de intuição. Todos têm, até os que a desconsideram. Também conhecida por sexto sentido, é algo abstrato que surge do nada e se acomoda no seu íntimo, mesmo sem aplicação imediata.

A intuição não é soberana, dá suas furadas. Mas quando acerta, até assusta.

Não sou de ter muitas, não dou espaço, elas podem me deixar na defensiva, e, sinceramente, não tenho mais tempo a perder com medos infundados. Mas havia uma intuição que andava colada em mim há alguns anos. Uma intuição consistente. Eu não tinha motivo para pensar muito no assunto, ninguém me exigia um posicionamento, mas mesmo assim aquela intuição grudou em mim como se aguardasse uma convocação para qualquer momento. Eu sabia que seria difícil levá-la em consideração se a ocasião surgisse.

Surgiu. Eu precisava dar uma resposta durante um telefonema inesperado, sem chance de pedir cinco minutos para pensar. Estavam todos prontos para o meu sim. O meu sim era dado como certo. Não poderia haver outra resposta, só se eu fosse maluca. E como não sou maluca (não muito), respondi: sim.

Minha intuição ficou uma arara. Sentiu-se desprestigiada. Depois de anos me preparando para aquele momento, anos me dizendo em silêncio “não vá”, “não encare”, “não é pra você”, quando chegou a hora, não dei ouvidos a ela. Ora, se eu a obedecesse, nunca saberia o que viria depois. Ficaria me perguntando se eu não teria sido medrosa, se eu não teria sido uma boba. Por isso, disse sim, fechei os olhos e fui.

Bem feito pra mim.

Minha intuição não foi comigo assistir ao estrago, ficou em casa esperando eu retornar. Quando eu abri a porta de casa, estava ela esquentando minha cama com a sentença que eu não queria ouvir: “avisei”.

Subiu de escalão, minha intuição. Ela me conhece de um jeito que eu não me conheço. É comum a gente formular teorias a respeito de si mesmo e achar que isso basta. Só que teorias não sustentam nossas precariedades. Quando sentimos algum desamparo, vale dar mais atenção aos lampejos fugazes do que às nossas certezas pré-fabricadas.

A intuição nada mais é que um lembrete: respeite o que ainda há de inocência em você.



Jornal Zero Hora - 19 junho 2016
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 15 06 16

O frio vencendo

São exatamente oito e meia de uma manhã siberiana em Porto Alegre – lá fora está 1°C. Um grau que me inspirou a transferir minha aula matinal de pilates para as quatro da tarde e a escrever este texto sobre o inverno, uma estação que para alguns brasileiros é ficção científica, para outros não passa de um pequeno alívio em meio ao calor tropical e para outros, ainda, é motivo para perder a noção do ridículo e calçar três meias, luva, gorro, cinco blusões e um casaco do exército – em casa. 

Uma estação que remete a vinhos, fondue, lareira, romantismo e elegância para quem vive dentro de um cartaz de turismo de Gramado e que para outros é associada à fila de hospital, nebulizador, descongestionante nasal, atchim.

Na dúvida entre comentar o charme da estação mais europeia do ano ou explicar as razões da contagem regressiva feita por quem já vem espirrando desde maio (faltam 99 dias para o início da primavera!), resolvi partir para um terceiro viés: inverno se resume a isso?

Na Flórida, 49 pessoas foram assassinadas à queima-roupa durante uma festa por terem cometido a ousadia de serem gays. Bastou um arrogante armado de ignorância e metralhadora para lembrar que o tal “avanço da civilização” empacou e deu meia-volta. Isso é inverno.

O estupro individual ou coletivo de uma menina, de várias meninas, e de meninos também, os abusos cometidos por trás de paredes vizinhas, dentro de sacristias e escolas, embaixo de nossos narizes, fazendo com que crianças se transformem em adultos com dificuldade de amar e de confiar. Isso é frio de verdade.

Donald Trump ter chegado tão longe. Brrrrrrrr. Me petrifica.

A corrupção, o foro privilegiado, as alianças indecentes feitas para manter o poder, políticos governando para si mesmos, a falta de comprometimento social, as delações canalhas da qual a Justiça se tornou dependente, a ausência de novos líderes, isso é que congela a alma e escurece mais cedo nossos dias.

Quinze graus é verão. Um grau é sopa. Abaixo de zero estão nossas perspectivas.

O que poderia nos aquecer? Solidariedade, tolerância, educação. Três palavras ao vento que, de tão repetidas, já quase perderam o significado. Mas vale teimar um pouco mais. Não é possível que seja tão difícil levar em conta os sentimentos dos outros, segurar uma agressão dentro da boca, compreender que se pode amar a si mesmo sem cair na vaidade de achar que todos os que não são iguais a nós estão equivocados.

Um pouquinho de humildade, menos pretensão, menos afetação, lutar por valores que sejam comunitários, que mobilizem, agreguem, aproximem pessoas. Por aí, quem sabe, a gente extraia algum calor bem antes de a primavera chegar.



Jornal Zero Hora - 15 junho 2016
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 11 06 16

Divagações sobre o amor


Quando a gente diz “eu te amo” para alguém, está sonegando o resto da informação. Não amamos o outro. Amamos o que o outro provoca em nós.

E então veio o julgamento sem dó: Não sei o que ela viu nessa criatura. Pobre da mulher. Não fazia nem 10 minutos que tinha apresentado o novo namorado e bastou se afastar dois passos para que as amigas, em assembleia, rejeitassem sua escolha.

O que ela havia visto naquele sujeito comum, altura mediana, rosto sem personalidade, um cara retraído e sem graça? A resposta não estava nele. Se olhassem para ela, saberiam.

Ela e seus olhos faiscantes, ela e seu sorriso tão largo que escapava por trás das orelhas, ela que parecia estar de sapatilhas dançando O Quebra-Nozes, ela que descobrira como renovar todo o colágeno da pele, ela que pela primeira vez usava um decote profundo. O que importava a retração aparente do sujeito? Estava tudo explicado.

Quando a gente diz “eu te amo” para alguém, está sonegando o resto da informação. “Eu te amo”, assim, resumido, dá a entender que amamos aquela pessoa apenas pelas qualidades que ela tem, mas não é assim que funciona. Quem tem uma coleção de defeitos também é amada, então a lógica acaba de se retirar deste debate. Não amamos o outro. Amamos o que o outro provoca em nós.

Se a declaração fosse completa, diríamos: te amo porque você acabou com a minha soberba, eu que tinha um discurso pronto sobre a superioridade dos solitários. Te amo porque sua entrada na minha vida me fez sentir com 10 anos menos. Te amo porque voltei a acreditar no meu potencial. Te amo porque descobri que posso ser divertida. Te amo porque me deu vontade de praticar esportes e mudar minha alimentação. Te amo porque nunca tinha encontrado alguém que me convencesse a dançar. 

Te amo porque eu jamais teria coragem de colocar um cachorro no meu apartamento não fosse seu atrevimento em me dar um. Te amo porque eu precisava renovar minhas lingeries. Te amo porque pela primeira vez estou pensando em me dar alta na terapia. Te amo porque me sinto desejada. Te amo porque consegui esquecer a minha ex. Te amo porque você me faz batalhar por projetos que eu já tinha desistido. Te amo porque passei a gostar dos meus seios. Te amo porque enfrentei os meus medos. Te amo porque estou reconhecendo outra pessoa no espelho.

Ele? É só um homem gentil, simpático, que trabalha bastante e resmunga bastante também, que tem um pai botafoguense que nunca o perdoou por ser vascaíno e que já viveu dois amores que o deixaram mais preparado para tentar acertar no terceiro.

Ela? É só uma mulher atenciosa, discreta, às vezes um pouco insegura, que ainda sonha em ser alguma coisa além de bibliotecária e que anda cogitando ter um filho para se sentir mais completa.

Amor, pensando bem, é gratidão. Duas pessoas comuns tornando uma a outra especial.



Jornal Zero Hora - 11 junho 2016
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 08 06 16

E segue o baile


Acabei de ler o ótimo A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, uma novela com personagens bem construídos, histórias dramáticas contadas com uma ironia deliciosa e que nos apresenta um interessante painel de como as mulheres viviam nos anos 40, quando não tinham acesso à vida pública, mantendo-se privadas de trabalhar, de dar opiniões e de relacionarem-se com liberdade. Do livro, saltei para a versão 2016 do programa TV Mulher, com Marília Gabriela e convidados debatendo sexualidade, violência doméstica e demais assuntos que abastecem a nova revolução feminista que anda em curso.

Da invisibilidade retratada no livro de Martha ao protagonismo da mulher do século 21 são quase 80 anos de conquistas valiosas e definitivas, e segue o baile, pois ainda há muito a falar sobre a cultura do estupro, a descriminalização do aborto, maior representatividade política, equiparação salarial e demais questões que visam dar à mulher um respaldo integral, e não parcial.

Cada uma se engaja a seu modo. Algumas levantam bandeiras e saem às ruas. Outras são discretas, porém donas do seu desejo, o que as torna aliadas da causa sendo simplesmente quem são. Em tese, somos todos a favor do empoderamento feminino, mas quando o assunto sai da esfera civil e profissional para entrar na esfera amorosa, radicalismos geram desconfortos que poucos comentam para não serem chamados de retrógrados. O fato é que as relações são feitas também de subjetividade, o que inclui o jogo da sedução. Abrir mão desse jogo é reduzir a graça de viver.

Sedução implica a existência de um predador e uma vítima, duas palavras associadas à violência, mas não neste caso. O homem conduz a mulher na dança. O homem abre a porta do carro pra ela. Caminha do lado de fora da calçada em sinal de proteção. 

Não vou falar sobre quem paga a conta, pois dinheiro é assunto concreto e falo aqui de algo abstrato: a atmosfera forjada que alimenta a fantasia para a sedução se manter. Casais homoafetivos incluídos, claro. Um toma conta (“o predador”) e o outro se submete (“a vítima”), podendo-se inverter os papéis a qualquer momento. Um arranjo assimétrico que não oferece prejuízo para o avanço da sociedade. 

Ninguém é dono de ninguém, ninguém deve obediência ao outro, já demos adeus à hierarquia, não estamos mais nos anos 40, mas, se extinguirmos certas performances que nos conectam com nossa natureza animal, de onde extrair alguma palpitação? A dama e o cavalheiro podem, claro, interromper a orquestra a fim de discutirem juntos para que lado seguir, mas, uma vez de acordo, é preciso continuar a dança, e sempre haverá um que conduz. Não é preciso lutar inclusive contra isso. É de mentirinha. Como o teatro. Afinal, o amor também é uma arte.



Jornal Zero Hora - 08 junho 2016
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Martha Medeiros - Jornal Zero Hora - 04 06 16

Depois que o amor acaba


Depois que o amor acaba, entra em cena a isenção. Agora você pode, enfim, avaliar o que aconteceu por outro ângulo. “Pensando com mais clareza, agora vejo que aquela relação foi a experiência mais fascinante que vivi.” Oi?

Um ano antes, a mulher parecia um trapo encardido, passava chorando pelos cantos, lamentando a má sorte de ter se apaixonado por um Don Juan que só a humilhava e a fazia sofrer, e agora aquela dilaceração toda se transformou na experiência mais fascinante já vivida?

Sim. Qual o espanto?

Depois que o amor acaba, entra em cena a isenção. Você não faz mais parte daquela nhaca. Está desobrigada de administrar revezes, de procurar soluções para impasses, de fazer parte de um jogo maluco de sedução. Não há mais adoração, esperança, ódio, raiva, desapontamento. E não havendo nada, tampouco há interesse em descredibilizar o outro para tentar manter o que resta da própria dignidade. Não há mais risco. Ninguém mais precisa se salvar. Agora você pode, enfim, avaliar o que aconteceu por outro ângulo.

Então, dali de onde ela estava, de uma distância segura do passado, tudo se transfigurou. O amor não era mais analisado pelo o que havia sido, mas pelo o que agora representava.

O que antes era dilacerante virou uma bela experiência anexada ao currículo. O que antes era gigantesco foi reduzido a um tamanho médio. O que antes era definitivo virou passageiro. O que antes era pra sempre, encontrou um fim sereno.

Dimensionamos nossas emoções de acordo com a força do momento. Acreditamos nas definições que costumamos dar ao que está sendo experimentado, usando com orgulho as palavras “tudo”, “infinito”, “certeza”. Ficamos apalermados pelo vigor da experiência, pelo absoluto das nossas sensações, até que, depois de um longo tempo de crença, perde-se a aposta, o jogo termina e vamos para outra mesa do cassino, onde tudo recomeça.

É quando o passado ganha uma nova cara e novos significados. O que era desespero transfigura-se em infantilidade, o que era perturbador torna-se risível, o que era intenso parece frugal. Você acreditou que era personagem de um melodrama, era assim que enxergava a história de dentro. Pulou para fora e agora só vê a parte amena, só a beleza da sua inocência. Aquela não é mais você, aquilo deixou de ser um tour de force, agora você se dá conta de que, quando se está no epicentro de um acontecimento, tudo parece maior do que é.

Estando em meio ao dilúvio, é inevitável sofrer, emocionar-se, dilacerar-se, abraçar todos os sentimentos inerentes àquele mergulho: não há como antecipar o amanhã, só existe a asfixia do hoje. O consolo é lembrar que é só uma questão de tempo para tudo acabar num leve e agradecido “valeu!”.


Jornal Zero Hora - 04 junho 2016
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